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Caetano celebra Torquato Neto: era um amigo inspiradíssimo e inspirador

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 Livro, Balada Literária em SP e filme resgatam história do Anjo Torto

Postais virtuais relembram frases célebres de Torquato

Releia um dos textos publicados na coluna Geleia Geral

 

Às 16h e 48 minutos do dia nove de novembro de 1944, no setor da maternidade do Hospital Getúlio Vargas, nascia Torquato Pereira de Araújo, neto (assim mesmo com vírgula e letra minúscula).

Se fosse vivo estaria completando 73 anos.  Ele só tinha 28 anos quando saiu de cena, mas deixou um legado e escritos na música, literatura, cinema e artes visuais brasileira que influencia toda uma geração. 

Torquato era poeta, jornalista, ator, letrista e foi um dos ideólogos da Tropicália e do movimento "udigrudi" do cinema Super 8. Nas suas inúmeras composições, fez parcerias memoráveis com Gilberto Gil e Caetano Veloso. E numa data tão importante, o autor de Cajuína não poderia deixar de homenagear o amigo.

Em um vídeo exclusivo gravado para o Cidadeverde.com, Caetano ressalta a importância de Torquato Neto para a cultura brasileira. Para ele, uma figura inspiradora e um dos grandes nomes do Tropicalismo.

"Sempre sinto saudades de Torquato. Era um amigo inspiradíssimo e inspirador. Foi uma das grandes figuras do Tropicalismo e da música popular e também do jornalismo", lembra no vídeo.

Caetano conta que Torquato fez campanhas de vanguarda no cinema brasileiro. "Uma figura enorme em nossa história", declara.

História que sempre será lembrada na música Cajuína, canção que retrata um encontro de Caetano com o pai de Torquato. "Por tudo que ele foi de maravilhoso em nossas vidas", diz o artista no vídeo.

Cajuína faz parte do disco Cinema Transcendental de Caetano Veloso, lançado em 1979.

 

Postais virtuais relembram frases célebres de Torquato

Quando soube de sua morte, o poeta Paulo Leminski escreveu: "grande arte de Torquato, poeta das eclipses desconcertantes, dos inesperados curtos-circuitos, mestre da sintaxe descontínua". Não há dúvida, sua poesia de estilhaços e críticas literárias reverberam até nos dias atuais.  

Na passagem dos #45 anos sem Torquato Neto (1944/1972), o Cidadeverde.com resgata frases e trechos de poemas manifesto que se eternizaram em músicas ou em citações famosas do piauiense. 

"De Teresina para o mundo. De Teresina para a morte. Essa é a breve história de Torquato, o menino que saiu do Piauí para Salvador, Rio, São Paulo, Londres, Paris, Rio". O relato é do escritor Toninho Vaz que inicia a biografia de piauiense relembrando sua odisseia pelas ruas de Teresina até ser conhecido pelo mundo como o "anjo torto" ou "nosferatu do Brasil".

Alma de contestador, Torquato escapou do incêndio da sede da UNE, pois costumava dormir lá, durante o golpe de 64. Participou ao lado de Gilberto Gil da passeata dos cem mil em 1968, no centro do Rio e foi um dos redatores e idealizadores do Tropicalismo.

Veja abaixo e compartilhe os postais virtuais em homenagem ao poeta. 

 

 

 

Livro, Balada Literária em SP e filme resgatam história do Anjo Torto

 

No ano que se comemora os 50 anos da Tropicália, Torquato Neto é homenageado na 12ª Balada Literária, que acontece  de 8 a 12 deste mês em São Paulo.

É um evento organizado pela trupe de Marcelino Freire que tem o respeito de poetas, escritores e artistas de todo o Pais.

A balada promete reviver seus gritos, sua arte, sua alma contestadora em saraus, shows e atividades culturais.

Haverá uma invasão de poetas piauienses no evento que terá ainda show de Jards Macalé, Arnaldo Antunes e Márcia Castro.

(Veja programação da Balada Literária aqui)

Será exibido também o filme "Torquato Neto: Todas as Horas do Fim", de Eduardo Ades e Marcus Fernando.

O documentário  estreou no Festival do Rio, passou na Mostra de SP e agora será exibido na Balada.

 

Fragmentos Poéticos

A poesia de Torquato Neto nunca é acabada, ela está sempre em construção. O processo criativo do poeta é revivido no livro lançado mês passado durante a pré-balada em Teresina. “Fragmentos Poéticos - a palavra em construção” é organizado pelo publicitário George Mendes, primo de Torquato com o professor da Universidade Federal do Piauí (Ufpi) Viriato Campelo. Apresentação é do poeta, letrista e filósofo Carlos Rennó.

O livro traz material inédito do poeta. A edição - que também será lançada em São Paulo - é resultado de uma descoberta de três cadernos espirais com anotações de Torquato Neto na construção de sua poesia. No livro, é reconstruído os passos, as repetições torquatianas, o fazer refazendo de músicas como "Go back" em parceria com Sérgio Brito e gravado pelos Titãs, além de "Let´s Play That" e "Três da madrugada".  

Um dos processos criativos é a poesia "I feel so sad this evenning", musicada por Quaresma, da banda Validuaté  e o poeta Thiago E. A ilustração do clipe (veja abaixo) é do cineasta Dalson Carvalho. O vídeo faz uma homenagem aos filmes em super 8.

Ouça música: 

 

Capa do livro "Fragmentos Poéticos" e escritos publicados na edição


Arte do livro “Fragmentos Poéticos - a palavra em construção” de George Mendes e Viriato Campelo/ direção de arte- Fabrício Nery

 

Releia textos publicados na coluna Geleia Geral

 

{ terça-feira, 14 de junho de 1971}

Pessoal intransferível

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa.  Difícil, pra quem não é poeta, é não trair sua poesia, que pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo, menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuaram levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi no matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

{quarta-feira, 15 de setembro de 1971}

Almondegário


1. Ponha a boca no mundo: assim não é possível. Ou então feche o riso e aperte os dentes de uma vez. Ponha a boca no mundo: somente assim é possível, louca, qualquer coisa louca de uma vez.
2. Qual?
quer?
3. Atenção para o refrão: tudo é perigoso etc. Atenção para o refrão: tudo é divino, maravilhoso. Atenção para o refrão: atenção para o samba exaltação. Atenção.
4. Meu amigo preferido não me quer ferido pelo chão. Meu amigo mais incrível nunca foi possível em minha mão. Minha amiga mais maluca funde a cuca só pra me dizer que não.  Minha amiga mais bonita é meu irmão.
5. Torno a repetir: ai, ai, ai. Torno a repetir, meu amor: ai,ai,ai. Onde é que você, em que cidade escondida, em que muda, qual Tijuca? Lá também quero morar.
6. Qual
quer?
7. Quero porque quero este baião, baião de dois, feijão com arroz, pão seco de cada dia, negra solidão. Quero porque quero esse baião, corado, fresco o bem machão; coragem, peito, coração.
8. Ponha boca no mundo.
9. Eu não.
10. Todo dia, toda hora: quem samba fica. Quem não samba vai-se embora. E mais: todo dia menos dia mais dia é dia D.   

 

Por Yala Sena e Hérlon Moraes
redacao@cidadeverde.com

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