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Nem santa nem vagabunda, Leila Diniz renasce em biografia

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Há personagens que passam pelo mundo com tamanha velocidade e fazendo tanto barulho que, depois de algum tempo, biografia, lenda e mito viram uma coisa só e ninguém mais sabe, exatamente, qual foi a sua contribuição e legado. Leila Diniz (1945-1972) é um caso típico.

 Quem nasceu nos últimos 30 anos pode já ter ouvido falar de pelo menos dois de seus feitos. Deu uma entrevista ao “Pasquim”, em 1969, que ficou famosa menos pelo que disse do que pelas dezenas de asteriscos que os editores colocaram no lugar de cada palavrão que falou. Foi a primeira brasileira a aparecer grávida, de biquíni, numa fotografia de revista, em 1971.
 
Xingada de “vagabunda” na praia de Ipanema, criticada por feministas, incomodava até as amigas com o seu comportamento “libertário”. Não à toa, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos observa: “Morta, a ‘prostituta’ transformou-se imediatamente em santa e (...) teve o busto entronizado no altar das mulheres que ajudaram a inventar o país”.

Recém-publicado, “Leila Diniz” (Companhia das Letras, 288 págs, R$ 39) ajuda a colocar o busto no lugar que ele merece, nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Num texto jornalístico, mas com sabor literário, Joaquim relata a trajetória de Leila Diniz de forma cronológica, conseguindo produzir, ao final, um retrato riquíssimo, matizado, de uma personagem que já foi alvo de quatro biografias, mas ainda permanecia um mistério.

Leila Diniz expôs o corpo numa época de recato. Falou palavrões em público num tempo em que apenas os homens faziam isso. Fez apologia do prazer sexual quando isso era um tabu. Namorou quem quis, solteiros e casados, sempre manifestando a sua vontade. Era muito diferente da maioria das mulheres do seu tempo – e teve a oportunidade de fazer tudo isso de forma pública graças à visibilidade que a carreira de atriz lhe proporcionou.  
 

Com curiosidade e sensibilidade, mas sem ceder à indiscrição ou à fofoca que o tema permitiria, o jornalista, colunista do jornal “O Globo”, fez 75 entrevistas no esforço de apresentar o seu retrato de Leila Diniz. Ainda que não se arrisque muito nas interpretações, Joaquim enxerga pistas importantes para entender a sua personagem ao descrever em detalhes a tumultuada infância de Leila – filha de um militante do PCB e de uma mulher com graves problemas de saúde, criada por várias “mães” ao longo da vida.

A adolescência ocorre em local e período iluminados, a Copacabana do final da década de 50, início dos 60, período em que Leila abandona a escola para namorar Domingos de Oliveira e se descobrir atriz. Um dos resultados desta relação de pouco mais de dois anos talvez seja o melhor filme da carreira de ambos, “Todas as Mulheres do Mundo”, até hoje difícil de assistir, apesar de lançado em DVD.

Foi atriz de cinema, teatro e televisão, mas não deixou uma marca especialmente forte em nenhuma dessas áreas, mostra Joaquim, sem medo de desagradar. Como diz o crítico Ely Azeredo, resgatado pelo autor: “O teatro não era sua praia, a televisão a usou com sua embocadura de veículo superficial, e o cinema brasileiro não estava preparado para uma força da natureza como Leila. Ela era pessoal demais, carnal demais, ‘real’ em demasia para esse cinema dos anos 60”.

Ainda que não inéditos, dois importantes episódios ligados ao mundo da televisão são esmiuçados por Joaquim. O primeiro, o veto da Rede Globo à participação de Leila em novelas da emissora a partir de 1968. Daniel Filho atribui o veto a Janete Clair, autora de novelas então em ascensão, que temia que a má fama de Leila influenciasse negativamente o público das novelas.

Já José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então superintendente da emissora, afirma que Leila foi vetada por ter abandonado a Globo para fazer uma novela na TV Excelsior. “Ficamos decepcionados”, conta. “Quando quis voltar, estávamos naturalmente tristes com aquela quebra de contrato. Era política da empresa.”
 
O segundo episódio é o apoio que o ultraconservador Flavio Cavalcanti e sua família dão a Leila no momento em que a polícia política pretendia prendê-la por atentado ao pudor. Apresentador de um dos programas mais baixos da tevê, no final dos anos 60, Cavalcanti deu emprego a Leila quando ninguém mais a acolhia e a escondeu em sua casa, em Petrópolis, quando a polícia a procurava.

Detalhista e traindo alguma nostalgia, Joaquim descreve o corpo de Leila e das mulheres desejadas de seu tempo. "Dentuça, mas com sorriso irresistível, quadris um tanto largos, mas cintura bem desenhada. Era deliciosamente imperfeita", escreve. Chama a atenção do jornalista a mudança no padrão de beleza ocorrida posteriormente. “No início dos anos 70, os fotógrafos não registravam o corpo da mulher de perfil. Valorizavam-se principalmente as curvas do violão feminino. O bumbum arrebitado era uma abstração”, escreve. E mais: “A carne dura ainda não era a onda. Valia um umbigo mais arredondado. Mulheres cheinhas, eis o padrão. Leila oferecia curvas e muita alegria”.

Morta num acidente aéreo na Índia, depois de participar de um festival de cinema e ter um rápido affair com o então jogador Afonsinho, outro “libertário”, Leila Diniz foi alvo de “um festival de necrofilia” por parte da imprensa em seguida ao ocorrido, observa Joaquim. “Todo mundo faturou”, escreve, citando vários personagens que não ajudaram ou mesmo atrapalharam a atriz em vida.

Para quem nunca ouviu falar, mal conhece ou reteve apenas os clichês sobre a personagem, “Leila Diniz” apresenta uma história que vale a pena conhecer.

Fonte: IG

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