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Em ano de crise, atletismo brasileiro tem presença recorde na elite mundial

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Em um ano no qual enfrentou uma das maiores crises de sua história, o atletismo brasileiro também conseguiu alcançar um de seus melhores desempenhos do ponto de vista técnico.

A temporada de 2018 será marcada como aquela em que foi fechada a principal equipe da modalidade, a B3 (antiga BM&F). Além disso, o antigo presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), José Antônio Fernandes, foi obrigado a renunciar ao cargo por acusações de mau uso de dinheiro público.

No início de novembro, a Federação Paulista de Atletismo, a mais importante do país, sofreu intervenção da CBAt por não conseguir aprovar as contas dos últimos cinco anos e também ser acusada de desvio de verbas públicas.

O cenário, aparentemente caótico, não refletiu nos resultados ao longo da temporada.

A lista dos melhores do ano da Iaaf (Associação das Federações Internacionais de Atletismo) em 45 provas olímpicas tem 6 brasileiros posicionados entre as 10 primeiras marcas. Comparando com a mesma época no último ciclo olímpico, há uma clara evolução.

Ao final da temporada de 2014, o Brasil tinha três representantes no top 10: Fabiana Murer (1ª no salto com vara), Thiago Braz (10º no salto com vara) e o revezamento masculino do 4 x 100 m (8º).

Em 2018, terminaram entre os dez primeiros Gabriel Constantino (8º nos 110 m com barreira), Almir dos Santos (3º no salto triplo), Darlan Romani (5º no arremesso do peso), Núbia Soares (3ª no salto triplo), Andressa de Morais (7ª no lançamento do disco) e Fernanda Borges (8ª no lançamento do disco).

"A única explicação para esses resultados é a resiliência do atleta brasileiro. Independentemente das circunstâncias, ele vai pra cima, consegue se superar e alcançar resultados bastante significativos", afirmou Ricardo D'Angelo, gestor da área técnica da Orcampi, equipe de Campinas que abrigou parte dos atletas dispensados pela B3.

Como parte do acordo, a antiga patrocinadora comprometeu-se a pagar até dezembro os salários dos atletas. Além da força de vontade, D'Angelo acredita que os resultados obtidos foram reflexo de um trabalho mais longo.

"Todos que terminaram no top 10 já vinham de equipes que pensavam no desenvolvimento do atleta, oferecendo bons treinadores, chance de competir no exterior, boa estrutura multidisciplinar, bons salários", afirmou.

Darlan Romani, 27, concorda com a tese. Ele foi quinto melhor do mundo no arremesso de peso pela marca de 22,00 m, obtida no Troféu Brasil, em setembro.

"Nós já estávamos evoluindo para alcançar essas marcas, porém calhou de acontecer em um momento triste para o nosso atletismo. Mas esse salto dos resultados nos ajudará a fortalecer, especialmente em um ano pré-olímpico como será 2019", afirmou o atleta do Pinheiros.

Para tentar esquecer os problemas fora das pistas, os atletas procuram se concentrar nos treinos e competições.

"Quando entramos na pista, esquecemos tudo que está acontecendo fora. É nossa válvula de escape", explica Núbia Soares, do salto triplo, que foi para a Espanha, embora siga vinculada à Orcampi. 

Em julho, Núbia saltou 14,69 m em uma competição na França, marca que lhe deixou como a terceira melhor do mundo na sua prova.

Apesar da crise do atletismo nacional, a CBAt também acredita que deu sua contribuição para amenizar os efeitos dos problemas e fomentar os bons resultados do ano.

"Esse bom momento só foi possível porque conseguimos blindar os atletas de todos os problemas jurídicos e por não deixarmos de enviar nossas delegações para as competições programadas.

Acho que o atletismo irá sobreviver a essa crise, pois temos um material humano fora de série e excelentes treinadores", disse o atual presidente da CBAt, Warlindo Carneiro, ex-vice de José Antônio Fernandes.

Centro de excelência vira solução para atletas sem clube O cenário do atletismo brasileiro, que já era ruim após a notícia do fechamento da equipe B3, ficou ainda mais preocupante para os atletas em São Paulo quando o centro de treinamento que era mantido pela equipe em São Caetano do Sul foi fechado, no começo de junho.

Instalado em um terreno cedido pela prefeitura da cidade, tinha duas pistas (uma delas coberta), além de área de fisioterapia e academia. Os equipamentos acabaram retirados e a prefeitura pediu o terreno de volta.

A solução que muitos encontraram foi buscar ajuda no Núcleo de Alto Rendimento de São Paulo (NAR), mantido pelo Instituto Península e que mantém uma parceria com o Centro Olímpico da prefeitura municipal de São Paulo.

Semanalmente, o centro recebe pelo menos cem atletas apenas do atletismo, sem contar as demais modalidades que utilizam suas instalações para avaliações físicas e treinamento.

"Como estes atletas e treinadores acabaram ficando desemparados, estávamos disponíveis para ajudá-los. Claro que nos impacta em muitos setores, mas não iríamos deixar de ajudá-los", comentou Irineu Loturco, diretor técnico do NAR.

Com o fechamento da pista de São Caetano, o movimento no centro de treinamento, localizado no bairro de Santo Amaro, aumentou muito. "Aqui eles almoçam e fazem os testes físicos gratuitamente. Com o aumento da demanda, depois de agosto, tivemos que criar um esquema de agendamento para que não ficasse superlotado", afirmou.

O apoio acaba também servindo como uma vitrine de oportunidades, segundo Loturco. "Não temos intenção de produzir atletas. Não importa para onde vá, desde que o atleta tenha um futuro", explicou.

MARCELO LAGUNA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

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