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“Cazuza foi um dos três amores da minha vida", afirma o cantor Ney Matogrosso em entrevista

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Exibindo seu lado feminino em coreografias erotizadas como uma forma de transgressão à ditadura militar dos anos 70, o cantor Ney Matogrosso surgiu no cenário musical brasileiro influenciando toda uma geração. Mas quem abre a porta de seu apartamento, uma cobertura no Leblon, Rio de Janeiro, é um Ney sério, de voz baixa, de calça e jaqueta jeans e sapato social. A ousadia dos palcos contrasta com a sobriedade do lugar em que mora. A meia-luz da sala é para não perturbar os dois gatos que dormem no sofá.

Aos 67 anos, o cantor de voz aguda termina 2008 em turnê com o show do CD Inclassificáveis, um dos mais elogiados pela crítica. Ele também retoma sua carreira cinematográfica, que teve centelhas no final da década de 80, quando fez Sonho de Valsa e o curta-metragem Caramujo-flor e, em 2005, participou de Diário de Um Mundo Novo. Animado com a repercussão do recém-lançado Depois de Tudo, curta de Rafael Saar que narra o encontro de um casal homossexual da terceira idade, ele se prepara para mais. A convite da diretora Helena Ignez, Ney protagonizará, no ano que vem, Luz nas Trevas – A Revolta de Luz Vermelha, continuação de O Bandido da Luz Vermelha, de 1968. Também em 2009, será lançado um documentário sobre sua vida.

No bate-papo a seguir, Ney fala sobre os novos projetos, sua personalidade excêntrica e o amor que sentiu por Cazuza.

Houve unanimidade nos elogios a Inclassificáveis. A que se deve isso?
Ninguém achava que eu ainda conseguisse me mexer. É uma necessidade minha essa mexida, para me manter interessado pelo que faço. Meu público se renova, em parte, por isso.

Por que você insiste na sensualidade das suas músicas?
A sensualidade é um traço da minha personalidade. Não é minha preocupação. Não tenho controle. Não ensaio na sala para fazer igual no show. Quando subo ao palco, se manifesta em mim. Eu não freio, libero.

Não tem medo de parecer vulgar?
Nunca. Caminho numa lâmina e busco o equilíbrio. Tudo meu é mais elástico que na média das pessoas.

Na letra de “Lema”, você canta “Jamais vou dar fim ao menino em mim”. Como cumpre essa promessa?
Envelhecer é um estado mental, mais até do que a coisa física. Se fosse me submeter ao tempo, não faria o que faço. Fisicamente acharia que não dou conta. Acharia ainda que isso não fica bem para um homem da minha idade. Não estou nem um pouco preocupado com isso. Se me sinto apto, faço!

Você se vê fazendo o mesmo tipo de show daqui a alguns anos?
Sei que vai ter um momento que o tempo será determinante, mas, enquanto não for, não economizarei. Não fico mais cansado do que ficava há 30 anos. Não me submeto a parâmetros. Um homem de 67 anos não faz o que faço. Minha vida não é determinada pelo tempo cronológico.

Em outra música do CD, “Leve”, você canta “Ser feliz ou não, questão de talento”. Você tem talento para ser feliz?
Questionei muito essa frase quando a música chegou a mim. Talento para ser feliz é talento para perceber que se pode ser feliz. Felicidade não é uma coisa constante. Vivo para o agora. Não tenho nostalgia de nada. Tenho lembranças de bons momentos, mas não vivo estacionado nas alegrias nem nas tristezas.

Por que voltar a fazer cinema?
É uma coisa que pretendia há muito tempo. Não cheguei a me satisfazer como ator. Sabia que voltaria. Aí, surgiu o convite para a continuação de O Bandido da Luz Vermelha. Aceitei, mesmo sabendo que era arriscado, pelo personagem ser tão emblemático.

Você fez Depois de Tudo, em que vive um amor gay na terceira idade. Por que aceitou o papel?
Quando o diretor veio aqui em casa e me deu o roteiro para ler, eu disse: “Isso é uma proposta, né? Você está querendo que eu faça seu filme”. Perguntei se já tinham feito algo parecido. Ele disse que não. Falei: “Então, quero fazer, porque é o que me interessa: fazer o que ninguém fez”.

Em breve você estará em um documentário. Não tem medo de ter sua vida revisitada?
Imagina! Quero que vejam as épocas negras do Brasil, intercaladas a imagens de shows, em plena ditadura, e eu praticamente nu em cena. É importante que as pessoas tenham noção do que significou a minha vida artística num país totalmente opressor, numa sociedade careta.

Também será contada sua relação amorosa com Cazuza?
Vai, porque isso não me pertence mais. Mas não me interessa tornar pública minha vida pessoal. Isso é meu, em particular, vai morrer comigo. Não estou falando de relações com homens somente, mas com mulheres também. Não quero falar de pessoas que amei. Acho vazio quem vive de falar disso.

Você já disse que, com Cazuza, viu que “era possível um relacionamento além do sexo”. Ele foi seu grande amor?
Falo isso porque, até então, eu só me relacionava sexualmente, tanto com homem quanto com mulher. Se quisessem algo a mais comigo, eu cortava. E eu tinha medo, me sentia incapaz de viver um relacionamento. Essa mudança faz parte de um processo individual de amadurecimento. Cazuza foi um dos três amores da minha vida.

Três amores não é pouco?
Mas amei intensamente.

E quem seriam os outros dois?
Não citaria os outros nomes. Não sei nem como isso do Cazuza escapou. Mas não fui eu que tornei esse amor público.

O que você achou da declaração da Marina Lima, admitindo que teve relações sexuais com Gal Costa?
Mas todo mundo sabia disso! A história do processo procede? (Foi divulgado que Gal estaria pensando em processar Marina.) Tomara que não, porque é ridículo. O que me choca é que isso não era um segredo, todo mundo que conhece as duas sabe. Não acredito que a Marina tenha falado isso para gerar essa reação toda, ela falou por naturalidade.

Você já declarou que usa maconha como terapia. Como assim?
Não posso dizer que uso maconha. Já fui maconheiro, de acordar e fumar em jejum. Não posso falar que sou maconheiro, hoje. Mas, se tiver algum problema, faço uso dela de novo. Ela é extremamente útil. Já tive contato com todos os tipos de drogas disponibilizadas por aí. Nunca me viciei em nada. Meu único vício é o Frontal, um remédio que tomo toda noite para conseguir dormir. Me angustia ter que, toda noite, deitar e ser criativo. Faço dois shows na minha cabeça tentando dormir. Acordo às 9h e meia, me levanto às 10h para fazer ginástica. Sou um cara do dia, mas porque uso remédio. 
 
 
 
Fonte: Revista Quem
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