Cidadeverde.com
Entretenimento

Björk persegue 'o momento mágico em que a música e o visual coincidem'

Imprimir

Foto: Reprodução/Instagram/Bjork

Quando se apresentou em Nova York em maio passado, a artista islandesa Björk incluiu sua canção "Venus as a Boy" –seu clássico de 1993– no repertório.

Ela cantou a balada, no entanto, dois tons abaixo, mais grave do que o original. Isso porque, como seu corpo, sua voz se transformou nestas últimas décadas. Amadureceu.

"Deixo que a minha voz envelheça", ela diz por telefone de sua casa na Islândia, enquanto conversa sobre a mostra Björk Digital.

A exposição estreia na próxima terça (18) no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, reunindo uma coleção de vídeos com realidade virtual. É, de certa maneira, uma homenagem à artista que, há décadas, inova o cenário musical.

Aos 53 anos, Björk fala com placidez sobre a passagem do tempo e critica a discriminação contra as mulheres, de quem se espera que nem a voz envelheça. Afinal, a artista islandesa dá exemplos, Frank Sinatra e Johnny Cash puderam envelhecer. Suas vozes eram tidas como charmosas.

Whitney Houston, no entanto, foi ridicularizada por não conseguir mais cantar com os mesmos agudos que ela alcançava em sua juventude.

"Eu canto com a voz que eu tenho, e escrevo melodias que eu posso cantar neste período específico", Björk diz. "Quando você me ouve cantar hoje, está me ouvindo na casa dos 50 anos, e é diferente. Há 20 anos, eu não teria feito essa nova versão de 'Venus as a Boy'", afirma. "Acho que é bom tentar aproveitar cada período da sua vida."

Mas, com todas as mudanças pelas quais Björk passou, incluindo o divórcio que inspirou o álbum "Vulnicura" em 2015, há algo que se mantém estável, uma âncora fincada: seu fascínio pela mistura entre música e vídeo, visível em seus famosos clipes. Entre seus clássicos estão "All Is Full of Love", que mostra dois robôs trocando carícias, e "Pagan Poetry", em que as costas de Björk são perfuradas por uma corrente com pérolas.

"Desde que sou adolescente, faço videoclipes. É o que estou fazendo hoje, mas com ferramentas diferentes. Ainda estou tentando captar o momento em que a música e o visual coincidem, tento encontrar esse momento mágico", afirma. "Não creio que acerto na maior parte das vezes. Na maior parte delas, eu erro. Mas às vezes funciona..."

É esse o momento que o MIS exibe com a mostra Björk Digital, tratando dos videoclipes da islandesa como objeto de museu. Os visitantes terão a oportunidade de vê-la em realidade virtual. O vídeo da canção "Mouth Mantra", em especial, oferece uma experiência íntima: foi gravado dentro de uma reconstrução da boca dela.

"Ainda acho que o videoclipe é o melhor formato para se expressar. É incrível. Amo o fato de que posso colocar no YouTube, e você não precisa pagar para ver", Björk afirma. "Eu fui criada na classe trabalhadora, então gosto desse espírito democrático."

Veio do lar, também, a sua predileção pelo que chama de "um espírito de faça-você-mesmo". "Em casa, todo o mundo costurava o seu suéter. Gosto de trabalhar com gente assim. Que pega um graveto, um papel e se pergunta o que pode fazer com eles."

Durante toda a entrevista, Björk beira o saudosismo ao lembrar-se de diversas ocasiões de sua adolescência. De quando tocou em bandas punk na Islândia, por exemplo. "Quando eu tinha 16 anos, cortei meu cabelo e fiz rabos para todos os membros da banda. Prendemos com alfinetes nas nossas calças e nos tornamos outras criaturas."

O processo de se transformar no palco, diz, é algo primitivo. "Um dia os homens da caverna estavam sentados ao redor do fogo, à noite, e uma pessoa pintou seu rosto. Então virou uma criatura xamânica", diz. "Esse teatro é algo profundo. Não é artificial." Suas turnês têm, de fato, se tornado cada vez mais teatrais. Na mais recente, em Nova York, Björk encomendou um canhão de ar para soprar na plateia durante uma canção.

Levou tempo, porém, para que ela se entendesse com a fama, para que lidasse com a sensação de se agigantar. "Aprendi que não sou eu ali. Não sou eu que estou crescendo. E aprendi da maneira mais difícil. Nas vezes em que meu ego se tornou gigante, tudo desmoronou."

"O palco é sobre você encontrar algo bastante grande que não é você. É algo que todos nós temos em comum. Algo xamânico, teatral, ou drag, ou uma ave-do-paraíso em Papua-Nova Guiné. É nossa experiência como animais", diz.

Nesse processo de se descobrir nos palcos, em especial nos últimos anos, Björk passou a cobrir o rosto com máscaras intrincadas, coloridas, por vezes com luzes piscantes. Elas são desenhadas por seu amigo e colaborador artístico James Merry –é esse britânico, justamente, que atende o telefone quando a reportagem liga para a cantora.

Ela diz que há diversas razões pelas quais cobre o rosto, para além da estética. Uma delas é a proliferação dos telefones celulares. "Os paparazzi eram difíceis nos anos 1990. Mas hoje todo o mundo tem um telefone. Você vai a um restaurante e há cinco pessoas fotografando você", afirma.

Assim, de certa maneira, a máscara garante alguma distância entre Björk e a plateia, enquanto ela canta suas dores. "Posso tirar a máscara e voltar ao mundo. Colocar uma camiseta, ter uma vida normal. Aprecio essa separação."

"Sou triplamente de escorpião. Gosto do meu mistério, gosto de me esconder, de escolher cuidadosamente quando vou ser extrovertida", diz.

Enquanto conversa ao telefone, ela fala por longos períodos, emenda um pensamento no outro. Parece ter escolhido justamente aquele momento para ser extrovertida –e ri de si mesma. "Nas entrevistas, sempre parece que eu sei de tudo. Mas eu não sei", ela insiste. "Eu não sei!"

BJÖRK DIGITAL

Quando: De 18 de junho a 18 de agosto, no MIS (av. Europa, 158, São Paulo, tel. 2117-4777). 
Ing.:R$ 30; gratuito às terças-feiras.
Classificação 14 anos

Imprimir