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Nova gestão assume CBDA e afirma ter dívida de R$ 17 milhões

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Após seguidas administrações problemáticas, a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) tenta tomar um novo rumo, mas encontrará dificuldades para deixar o estágio atual de penúria financeira. Com um passivo de R$ 17,2 milhões, a entidade tem um déficit mensal de R$ 76 mil.

Foto - Reprodução

Esses dados foram apresentados pelo novo diretor-geral da confederação, Renato Cordani, nesta terça-feira (15), em uma entrevista coletiva em São Paulo.

Na semana passada, a Fina (Federação Internacional de Natação) reconheceu o pernambucano e policial militar Luiz Fernando Coelho de Oliveira como novo presidente da CBDA. O mandato vai até 2021.

Oliveira, que mora em Recife, participou da entrevista por videoconferência. Por falta de recursos, conforme explicação de Cordani.

As contas têm fechado no vermelho mesmo depois de a nova diretoria cortar gastos, demitir funcionários e ter fechado a sua sede no Rio de Janeiro –o trabalho funciona no modelo home office.

"As nossas despesas mensais, incluindo folha salarial, são de R$ 218 mil, e a única receita fixa é de R$ 142 mil. Isso porque não temos gastos com água e luz", afirmou o diretor.

Para contornar a situação, a diretoria reuniu uma equipe de quase 30 voluntários. Entre eles, os medalhistas olímpicos Djan Madruga e Ricardo Prado. A promessa da atual gestão é de transparência e busca por patrocínios.

O cenário também é pessimista porque a CBDA não deverá contar com os repasses de recursos oriundos das loterias federais e previstos pela Lei Agnelo/Piva no próximo ano.

Da dívida total de R$ 17,2 milhões, R$ 7,7 milhões estão sendo cobrados pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil), que faria os repasses do dinheiro da Lei Piva, e R$ 3,5 milhões de processos trabalhistas.

Há também uma multa de R$ 2 milhões por conta do descumprimento de obrigações com o patrocínio dos Correios (encerrado no início do ano), além de R$ 4 milhões em dívidas com fornecedores e prestadores de serviços.

"São gastos da gestão do Coaracy [Nunes, presidente de 1988 a 2017], que é impossível que preste contas. Vamos chegar em 2058, e as contas de 2015 e 2016 não serão esclarecidas" disse Marcelo Jucá, diretor jurídico da confederação.

Na semana passada, Coaracy, 81, foi condenado em primeira instância por fraudes na gestão de recursos da entidade.

Segundo Cordani, a queda de receitas depois dos Jogos do Rio desencadeou demissões e processos trabalhistas. "Tivemos um faturamento de R$ 50 milhões no período olímpico, entre 2013 e 2016. Em dois anos, o nosso faturamento caiu para R$ 12 milhões e, no ano passado, para R$ 6 milhões", afirmou.

"É uma situação financeira e de governança péssima, um estado de depressão, enquanto temos ido bem nas competições", completou.

A nova diretoria definiu metas e traçou planos para cumprir em curto, médio e longo prazo. O objetivo inicial é garantir a sobrevivência da entidade e recuperar o prestígio. Atualmente, ela é a penúltima colocada no ranking do GET (Gestão, Ética e Transparência), que o COB atualiza para definir os repasses da Lei Piva.

A intenção é que a médio prazo, previsto até o final do mandato de Oliveira (2021), a nova diretoria reduza de forma significativa a dívida milionária, modernize o estatuto e consiga patrocinadores. E a longo prazo, dentro de quatro anos, sanar o passivo, obter superávit e investir nas categorias de base.

Oliveira tenta se descolar da imagem do seu antecessor, o advogado Miguel Carlos Cagnoni, mesmo tendo sido vice dele. Argumenta que era impedido de opinar. Ambos compuseram a chapa Inovação e Transparência, que comandaria a CBDA no quadriênio de 2017 até 2021.

Cagnoni foi destituído oficialmente da presidência da CBDA no mês passado. Em Assembleia Geral, realizada no Rio de Janeiro, sua saída foi confirmada em votação por unanimidade. Na ocasião, dez presidentes de federações e a comissão de atletas votaram pelo seu afastamento em definitivo.
Em sua carta de renúncia, divulgada antes da assembleia, Cagnoni alegou que sofria com problemas de saúde da sua esposa desde 2016 e culpou o bloqueio de recursos pela crise da entidade.

"Apenas o Miguel, o diretor-geral e o financeiro é quem podiam discutir as tomadas de decisões. O próprio Renato, assim como eu, tentou participar e também se retirou", afirmou o atual presidente. "Eu me retirei assim que eu vi que a dívida aumentava e viraria uma bola de neve."

Segundo Cordani, em uma das reuniões com a gestão anterior, foi reprendido por Miguel com a seguinte frase. "A CBDA está no século 18, e não somos nós que vamos conseguir chegar no século 21".

Os dirigentes acreditam que a turbulência administrativa não refletirá nos resultados da natação na Olimpíada de Tóquio-2020. "Esporte nós temos. Com toda essa dificuldade, nossa confederação foi carro-chefe no Pan", disse Cordani.

A CBDA administra cinco modalidades atualmente: natação, maratona aquática, saltos ornamentais, polo aquático e nado artístico.

CARLOS PETROCILO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

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