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População trans de rua sofre com falta de casas de acolhimento

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Anita Silvia, 33, é empurrada em sua cadeira de rodas até a mesa. O relógio passa das 19h; é hora do jantar. A postos já está a sua cuidadora, Jogê Pinheiro, com um prato de comida quentinho. De colherada em colherada, serve até o último grão de arroz.

Anita tem as mãos atrofiadas, perdeu os movimentos das pernas e fala com dificuldade -uma combinação de sequelas deixadas pela poliomielite que adquiriu na infância.
Mulher trans e periférica, como se autodenomina, Anita vive na Casa Florescer 1, primeiro abrigo da capital paulista mantido pela prefeitura só para travestis e mulheres trans em situação vulnerável.

Foi lá que diz ter sentido paz e segurança após anos vivendo em albergues compartilhados com homens. "É aqui que estou preparando o voo para morar num lugar só meu", diz.

Anita é carioca e convive com outras 29 mulheres de diferentes partes do Brasil, como Alagoas, Pará e Rio Grande do Norte. Todas elas carregam o mesmo histórico: foram abandonadas pela família quando descobriram pertencer ao grupo T da sigla LGBT.

No abrigo, o conforto é lei primeira. Não deixar a cabeça das meninas vazia é a segunda prioridade, diz Alberto Silva, o gestor da Florescer 1.

Lorrane Arantes, 42, aproveita tudo. "A vida é um quebra-cabeça como esse", aponta ela para o tabuleiro ainda em construção. Logo depois de encaixar as peças, a travesti corre para uma oficina de maquiagem. Sai da sessão pintada por sua colega como um cisne negro.

As pinceladas foram orientadas por Gabriella Bueno, Miss Brasil Transex 2018, uma das muitas personalidades que vão à moradia para ensinar e também para aprender. A Florescer 1 está localizada na rua Prates, no Bom Retiro, endereço de um complexo de albergues e serviços de saúde para moradores de rua no centro da cidade. Do lado de fora da casa, a vida é dura.

Uma fila de homens se forma ao final de cada tarde. Na espera por uma ducha e pelo pernoite numa cama, acendem pequenas fogueiras na calçada para fazer comida e suportar o frio. É num desses espaços exclusivos para homens que vive Roberto, 39, o amor da vida de Anita.
Por quase quatro anos, a Florescer 1 foi o único abrigo público exclusivo à população trans na cidade de São Paulo. Neste mês, uma segunda unidade foi inaugurada, com mais 30 vagas, no Tucuruvi, na zona norte. Mas ainda falta muito.
Censo da prefeitura realizado em 2015 (o mais atual) sinalizou a demanda: 8,9% das 15.905 pessoas identificadas em situação de rua na metrópole disseram ser LGBT -mais de 1.400 pessoas. Na comparação com moradores de rua heterossexuais, os LGBT sem-teto exercem mais a mendicância e atividades marginalizadas como a prostituição, o tráfico de drogas e o roubo para sobreviver.

É no ataque a esses problemas sociais que a Florescer ganha relevância. "Eu me orgulho muito em dizer que, das 320 meninas que passaram por aqui nos quase quatro anos de casa aberta, 92 conseguiram emprego formal", diz Alberto Silva.
Alberto é funcionário da Croph (Coordenação Regional das Obras de Promoção Humana), responsável pela Florescer 1 e 2. A entidade recebe R$ 63 mil mensais da prefeitura para pagar os salários de 17 assistentes sociais, psicólogos, cozinheiros e os serviços de segurança e limpeza.
A rede assistencial paulistana possui 138 serviços para a população de rua em geral com pouco mais de 21 mil vagas. Destas, 17.943 são para acolhimento.

O local mais disputado da casa é a ampla sala de estar com sofás, livros e TV, conjugada ao espaço das refeições. O lugar também tem um minicamarim, com espelho, secador de cabelo e produtos de maquiagem para as moradoras.

Os três quartos no primeiro andar do prédio são grandes e preenchidos por beliches. Cada mulher tem um armário para guardar roupas e objetos pessoais. No pátio estão um palco com arquibancada para apresentações culturais e uma quadra poliesportiva.

Além da moradia, a Casa Florescer busca cumprir mais dois desafios: potencializar talentos e elevar a escolaridade de suas moradoras. Natacha Lemos, 40, virou costureira de vestidos de festa; já Safira de Oliveira, 28, uma exímia dançarina.
A travesti Thássia Bragança, 28, conversou com a Folha no mesmo dia em que voltou a estudar, em outubro. "Cheguei na sala toda na defensiva, porque o mundo nos força a ser assim. Mas fui muito acolhida pelos novos colegas."

Ela abandonou o colégio ao ingressar na prostituição. Fez parte de uma quadrilha de roubo em SP. Presa, cumpriu quatro anos de prisão em oito presídios. Atrás das grades, teve o cabelo raspado, entre outras humilhações.

Agora, enche a boca para dizer: sou aluna do 9º ano do ensino fundamental. "Voltar a estudar foi o maior passo depois da prisão. Eu ganhei muito dinheiro na rua, mas era uma vida muito difícil, perigosa. Quero mudar a minha história e, por isso, estou aqui", diz ela, que sonha com a faculdade de marketing.
A tarefa de selecionar as moradoras e fazer valer a máxima de que "casa de travesti não é bagunça" é da assistente social Adriana Mascarenhas. "É um momento dificílimo para todas elas, porque sabem que chegar aqui é o fim do glamour."

"Quem falta três vezes consecutivas na semana sem justificativa perde a vaga. E elas só têm um dia na semana em que podem chegar à meia-noite", enumera Mascarenhas.
Berenice Giannella, que acumula as pastas de Direitos Humanos e Assistência Social da gestão Covas (PSDB), vê o acolhimento como uma medida extrema. "Esses espaços devem ser vistos sempre como de passagem temporária", afirma.
Questionada sobre se o número de equipamentos disponíveis é suficiente, Gianella pediu prazo para análise.
É que, segundo ela, está para sair do forno a primeira etapa do novo censo da população de rua em São Paulo, só olhando para os números, diz a secretária, será possível saber se a capital precisa de mais centros de acolhida.
Gianella também estuda outra opção de moradia: as repúblicas. Elas ocupariam espaços ociosos. "É mais barato do que as casas de acolhimento. Mas esse modelo exige moradores mais autônomos", afirma. Só para as repúblicas, a pasta afirma ter R$ 8,3 milhões para criar 2.000 vagas.
Organizações sociais dependem de doação para manter acolhida

Por muito pouco a Casa 1, abrigo na Bela Vista (centro de SP), não fechou as portas neste ano. Desde 2016, o local que funciona como república é refúgio para LGBTs expulsos de casa por sua orientação sexual e identidade de gênero.
Sem apoio do poder público e com as doações minguando, Iran Giusti, fundador do projeto, fez o exercício de futurologia mais difícil de sua vida. "A Casa 1 fecha em dezembro de 2019", escreveu numa rede social em março.
"Queria muito que tudo aquilo tivesse sido apenas uma jogada de marketing. Mas não foi", diz. Faltava dinheiro para comprar comida para os abrigados e para pagar o salário dos funcionários.
O possível fim chamou a atenção e criou uma nova rede de doadores, hoje responsáveis por desembolsos mensais que somam R$ 80 mil. As parcerias com empresas também ficaram mais sólidas.

"É com esse dinheiro que mantemos os salários de 24 profissionais [psicólogos, assistentes sociais, administradores e educadores, entre outros]", afirma.
A Casa 1 disponibiliza 20 vagas por temporadas de quatro meses. Cerca de 85% dos LGBT beneficiados saem do abrigo com emprego. "Mas dessas 250 pessoas que passaram por aqui, só duas voltaram a viver com a família."
O local, que também conta com um centro cultural e uma clínica psicológica, iniciou neste ano uma mentoria para ajudar 12 novos abrigos LGBT em diferentes partes do Brasil a captar recursos.

Para Rodrigo Franco, fundador da Casa Chama, em Perdizes, na zona oeste, a falta de apoio contínuo é um problema recorrente. "As empresas só aparecem em junho e somem no resto do ano."

O mês da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do mundo, é quando as companhias buscam apoiar projetos.
É justamente pela falta de recursos que a Chama não abriga pessoas trans. O projeto criou um festival de música, vitrine para artistas trans, e vem se especializando em consultorias nas áreas jurídica e de saúde, com 320 atendimentos realizados no primeiro ano de atividade.

Fonte: Folha Press

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