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Atividades coletivas reconectam pais e filhos isolados na quarentena

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Foto: Carlienne Carpaso

As medidas restritivas contra o novo coronavírus deram a oportunidade para pais e filhos que antes dividiam pouco tempo juntos se aproximarem. Nas famílias que puderam ficar em casa, entre as lições da escola e o trabalho remoto, pais e filhos criaram novos rituais familiares, colocaram a mão na massa e aprenderam novas atividades juntos. 

Logo no começo da quarentena, Guilherme Sapotone, 49, perdeu o emprego fixo. Músico e locutor, ele voltou a trabalhar em casa, onde tem um estúdio de gravação. Seus filhos, Alice, 15, e Tom, 11, com aulas virtuais e também em casa, resolveram aprender a tocar um instrumento com a ajuda do pai. Tom escolheu o contrabaixo, e Alice, que já cantava com Guilherme, escolheu o ukulele. Eles planejam fazer uma live juntos.

O cotidiano atarefado que divide a casa entre lar, escola e local de trabalho dá menos tempo que o esperado pela família para dividirem momentos de lazer durante a semana. Ainda assim, conseguem se reunir para sessões de filme e para jogar baralho. Alice aproveitou a quarentena para aprender a jogar tranca com os pais. "Mas ela ainda não ganha de mim e da minha esposa", brinca Guilherme.

Como o pai ficava menos em casa antes da pandemia e tinha pouco tempo para cozinhar, as crianças achavam que ele sabia fazer só as tradicionais minipizzas e o macarrão à bolonhesa.

Com mais tempo, ele vem ensinando pratos e receitas. Recentemente, fizeram até um campeonato de pudim –vencido pela mãe, Thais.

Também foi na cozinha que os filhos conheceram outras habilidades do pai Renato Opice Blum, 50. Com rotina preenchida por muitas atividades fora de casa antes da pandemia, Renata, 18, José Roberto, 15, e Paulo Renato, 12, dificilmente faziam as refeições em família durante a semana.

Na quarentena, os almoços e jantares passaram a ser sempre com a mesa completa e, muitas vezes, com a refeição feita pelo pai. "Teve hambúrguer, massas, pizza. Eles ficaram surpresos ao ver que eu consigo fazer os pratos que antes a gente comia em restaurante", conta Renato, que é advogado.

A maior proximidade forçada pelo isolamento também mudou a rotina e deu oportunidade para os filhos de Julio Alvarez, 55, aprenderem uma atividade com o pai. Ele e a esposa moram em uma chácara em Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo, onde também funciona o negócio da família, um espaço com atividades pedagógicas e sociais. Com a pandemia, o local teve que suspender as atividades presenciais.

A solução para Julio foi fazer pães para vender. Seus assistentes são os filhos Murilo, 15, e Rodrigo, 13. Com o pai, entenderam todo o processo de fermentação natural. "Aprendi a alimentar o levain [fermento natural], a fazer a mistura certa. Comecei para ajudar meu pai", conta Rodrigo.

Como moram no mesmo terreno da empresa, a família teve que se desdobrar para cuidar do que antes era feito por funcionários. As crianças aprenderam a cuidar do galinheiro, dos cachorros, a ajudar mais na limpeza, entre outras atividades.

Antes de se mudarem para Embu, a família morava em Santos, no litoral do estado. Por alguns anos, Julio ficou indo e voltando diariamente de lá, e por isso tinha pouco tempo com os filhos. Há dois anos parou de fazer o bate e volta.

"Como meu pai ficava mais distante antes e agora estamos bem juntos, fazendo os pães, parece que conheço ele melhor agora", diz Rodrigo. A aproximação forçada pela quarentena também surpreende quem há pouco aprendeu a se comunicar por palavras.

Ainda que a rotina de tarefas e atividades esteja intensa na casa do administrador de redes Bruno Teixeira, 34, as gêmeas Ana Beatriz e Manuela, 3, e a caçula Letícia, 1, descobriram que o pai conhece muitas brincadeiras. Ele conta que as meninas se surpreendem com as atividades que ele propõe.

"A rotina aqui é muito intensa com três crianças pequenas. É preciso manter regras e horários para não perder o controle, mas, para que o ambiente não fique estressante e chato, a gente transforma tudo em brincadeira", afirma Bruno.

Na semana passada, as meninas aprenderam a empinar pipa com o pai. "Elas nunca nem tinham visto uma pipa na vida. Era uma brincadeira muito comum na minha infância e elas amaram", contou.

Percival Caropreso, 69, disse que, apesar da relação mais próxima e dos novos papéis que assumiu com a filha Laura, 7, durante a pandemia, é ele quem tem aprendido mais.
"A gente sempre foi muito próximo, sempre brincamos muito juntos. Apesar de termos que incorporar as aulas virtuais à rotina, quem mais me ensina é ela", conta.

 

Fonte: Folhapress 

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