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Renato Gaúcho resiste a desgaste no Grêmio e tem nova chance na Libertadores

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No Campeonato Brasileiro em que 18 técnicos deixaram seus clubes em 22 rodadas, Renato Gaúcho é peça de museu. Contratado em setembro de 2016, ele está no Grêmio há quatros anos e dois meses, o treinador mais longevo na elite do país.

Foto - Lucas Uebel - Grêmio

Ajuda-o ser um dos maiores ídolos da história do clube, grande astro dos títulos da Libertadores e do Mundial de 1983. Também foi campeão sete vezes no comando da equipe desde que voltou para o que é a sua terceira passagem pela agremiação.

São esses troféus que o seguram no cargo, ele sabe disso. "Quer mostrar que é bom? Faz o seu time ganhar", já havia dito em 2018. Dois anos depois, continua com a mesma ideia. Ainda mais nesta temporada, quando passou a ser mais criticado por causa dos resultados.

O Grêmio chegou a rondar a zona do rebaixamento no Brasileiro. Recuperou-se e está invicto há sete partidas, com cinco vitórias no período que o levaram ao oitavo lugar, na briga direta pela classificação para a próxima Libertadores. Também é semifinalista da Copa do Brasil.

"Eu sabia que esse grupo ia se reencontrar. Tivemos uma série de problemas, com muitos jogadores no departamento médico, e isso complicou demais todo o nosso processo de maturação. Mas o nosso time é forte e tem muita qualidade. Eu sempre disse isso", afirma ele à reportagem antes do Grêmio iniciar o mata-mata do torneio sul-americano.

Nesta quinta (26), o time tricolor faz a partida de ida das oitavas de final diante do Guaraní (PAR), em Assunção. O torneio que, para Renato, reservou o melhor e o pior como técnico no time.

Em 2017, ele foi campeão contra o Lanús, na Argentina, seu segundo título continental (ambos pelo Grêmio) e o terceiro do clube.

O primeiro trauma veio no ano seguinte, quando o VAR sinalizou um pênalti para o River Plate (ARG) em Porto Alegre, na partida de volta das semifinais. A equipe gaúcha perdeu por 2 a 1 e desperdiçou uma classificação que estava quase conquistada, já que havia derrotado o rival em Buenos Aires por 1 a 0.

Esse é um fantasma que ainda o atormenta. "A final da Libertadores [de 2017] foi um jogo emblemático porque fizemos uma grande campanha. Mas tem o jogo do River Plate [de 2018], que ficou marcado para mim por tudo o que aconteceu dentro da arena. Era para o Grêmio ter feito a final daquela Libertadores contra o Boca Juniors e fazendo o segundo jogo em casa", relembra.

Ele considera decepção superior à da semifinal do ano passado, quando foi goleado por 5 a 0 pelo Flamengo de Jorge Jesus no jogo de volta e acabou eliminado. "[Naquela noite] Até uma mulher grávida faria gol na gente", resumiu numa frase pela qual foi criticado por grupo feminista de torcedoras do clube.

Conquistar a América novamente seria a chance de uma revanche dupla. Além de deixar para atrás a decepções dos últimos anos, significaria uma nova oportunidade no Mundial de Clubes. Em 2017, o Grêmio perdeu a final para o Real Madrid (ESP) por a 1 a 0, em uma cobrança de falta de Cristiano Ronaldo que passou no meio da barreira gaúcha.

O clube brasileiro foi criticado na época por ter feito um jogo muito defensivo contra os espanhóis. "O Real Madrid era uma potência, o melhor time do mundo, mas se estivéssemos com o time completo a história poderia ter sido outra", justifica o treinador.

Ele lamenta até hoje as ausências dos volantes Arthur e Maicon, jogadores que, na avaliação do treinador, faziam o jogo do Grêmio ser dinâmico no meio-campo.

Em fevereiro de 2021, data marcada para a próxima competição no Qatar, o representante europeu será o Bayern de Munique (ALE), campeão da última Champions League.

Embora considere as críticas naturais quando os resultados não chegam, Renato argumenta que as pessoas em geral não têm noção do quanto é difícil reformular os elencos de uma temporada para a outra.

Foram quatro anos em que o time vendeu peças-chaves do esquema do treinador, como Pedro Rocha (hoje no Flamengo), Arthur (na Juventus-ITA), Luan (Corinthians), Tetê (Shakhtar Donetsk-UCR) e Everton Cebolinha (Benfica-POR).

"Poucos sabem o quanto isso é complicado. É preciso tempo para que os jogadores que entram no meio do processo se adaptem e consigam desempenhar. E nem sempre se entende isso.

Querem que o Grêmio entre em campo, dê show em todos os jogos e vença. Isso é impossível. Para completar, neste ano ainda perdemos o Cebolinha", reclama.

Renato Gaúcho já previu, no passado, que a consequência natural do seu trabalho seria chegar à seleção brasileira. Apesar das críticas que apareceram em alguns momentos, ele sustenta que jamais sentiu o seu cargo ameaçado. Nem tem planos de deixar o Grêmio tão cedo. Se voltar a vencer a Libertadores, então, continuar se tornará quase inevitável.

O técnico apenas dá de ombros quando questionado sobre a fórmula para ficar quatro anos em um dos principais clubes do país.

"Não existe uma fórmula fechada para isso. Para tudo na vida você precisa de dedicação, talento, conhecimento e sorte. Aprendemos todos os dias, com as derrotas, mas também com as vitórias. 

Nem sempre quando se ganha está tudo certo. Da mesma forma que nem sempre quando se perde está tudo errado. Já acertei com a diretoria que fico até o fim das competições, em fevereiro. Depois disso, vamos conversar."

ALEX SABINO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) 

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