Cidadeverde.com
Geral

Em missa, Washington Bonfim faz homenagem a Firmino Filho; leia carta

Imprimir

Foto: Cidadeverde.com

O professor Washington Bonfim fez uma homenagem ao ex-prefeito de Teresina, Firmino Filho, durante a missa de sétimo dia que aconteceu nesta segunda-feira (12). Bonfim, que foi secretário de Educação e de Planejamento em gestões de Firmino, lembrou de momentos que esteve com o ex-prefeito. 

Leia carta:  

Boa noite. 

Na última sexta, quando a Lúcia Vaz me ligou, eu permanecia um tanto atordoado. O convite feito carregava muita responsabilidade, estar aqui na frente de todos e perante Deus para falar deste momento, neste momento, de tanta dor...

No final da ligação ela ainda perguntou: Você aceita? Nem hesitei, disse sim, muito honrado! 

Vi minha chance de dizer tanta coisa, de registrar tantos sentimentos. Jamais me perdoaria se deixasse passar. Agradeço estar aqui!

E o que quero falar não é longo, nem simples e vem do fundo do meu coração. 

Peço sinceras desculpas, de antemão, se disser alguma coisa indevida.

Na terça, quando tudo aconteceu, o dia amanheceu diferente, havia névoa sobre Teresina. Meu pai sempre disse que, quando assim amanhece, é sinal de que as chuvas estão indo embora. Foi tudo que consegui pensar naquele momento.

Eu estava indo para o hospital, vê-lo, em sua terceira internação nos últimos 5 meses. Era bem cedo, na troca de turno dos cuidadores que agora olham por ele 24 horas por dia. 

Mais tarde, 11h, tinha uma consulta psiquiátrica. Ao entrar no sexto mês da enfermidade terminal do meu pai, sentia que minhas forças já precisavam de ajuda, não seria o caso só de falar, tinha de ter um apoio químico.

Às 15h, a Paula Danielle me ligou e perguntou: “Aconteceu alguma coisa com o Prefeito?” Explicou rapidamente e eu liguei para o Fernando Said, repeti a pergunta. Havia preocupação na voz, senti que poderia ser verdade. Liguei para o Canindé, era verdade!
Minutos depois, a Andrea, minha esposa, chegou em casa. Eu contei e vi o sofrimento no seu rosto. 

Em seguida, liguei para minha ex-chefe em São Paulo, Regina Esteves, que o admirava muito... foi tudo que me ocorreu fazer. Ela quase não conseguiu falar, desligou. Minutos depois, recebi uma mensagem carinhosa de um grande doador da instituição para qual trabalhei...

Não descrevo esses momentos para aprofundar sentimentos tão vivos, mas para dizer que todos nós que o conhecíamos, gente próxima e distante, reagimos assim, atordoados, perplexos e incrédulos. Criou-se um vazio em toda Teresina... parecia um daqueles filmes de ficção em que, num apagão, tudo muda!

Já à noite voltei ao hospital para ver o papai e tirei minha primeira lição: “estou perdendo a bússola de minha vida e acabei de perder quem profissionalmente me fez ser quem sou, por ter me descoberto, incentivado e desafiado tantas vezes!”

Na quarta-feira, eu não consegui ir ao velório ou ao cortejo, voltei ao hospital logo cedo e depois fui participar de uma reunião. Quando terminou, decidi voltar ao hospital, tentei me esconder, precisava me esconder. Mas não podia contar pro meu pai, não podia falar com ele... saí de lá e fui conversar com o Siqueira Campos, que sempre sabe tanto sobre a vida!

Medicado, à tarde fui, com outra grande amiga, Daniela Cunha, à missa e ao sepultamento. Olhava as pessoas em volta e escutei atentamente o Padre Tony: não é o porquê! É para quê! É preciso ter fé no Senhor, agarrar-se à fé...

Na madrugada da quinta, eu acordei e só consegui pensar na Iranildes, pedi desculpas pelo horário da mensagem de WhatsApp e perguntei como ela estava. E mencionei a brincadeira que eu e o Erick Amorim tínhamos com ele, “podemos até zangar você, Firmino, mas se chatearmos a Iranildes, nunca mais vamos conseguir falar com o “Dr. Firmino”! 

Volto a ela depois.Bem cedo, ainda na quinta, pensei no Kleber e no Marcos Elvas, mandei mensagem para o Fernando e o Waldemar, liguei para o Luciano e marquei de falar com o Pe. Tony. Ainda estava em busca do sentido, ainda estava no porquê, e preocupava-me que a repercussão pública pudesse trazer prejuízo para outras pessoas, coisa que ele jamais sonharia em fazer. Liguei então para uma amiga comum, que mora nos EUA, a Paula Fontenelle.

Na quinta me veio a segunda lição: o para quê era a VIDA que ele cultivara tanto, o AMOR que dedicara a tudo e todos quanto passaram perto dele!

Esta lição, como tudo na minha cabeça, foi ficando mais clara à medida que falei com o Fernando e choramos juntos; na conversa com o Luciano, que já me telefonara na terça e ficáramos procurando explicações; na resposta do Charles à mensagem que enviei; e especialmente quando conversei, novamente, com o Padre Tony, em sua casa.

A essas alturas eu já havia ligado para o Jesus Filho, Claudio Tajra, buscado a amiga Dulce, que trabalha hoje na Clube e feito contato com a Cinthia Lages, o Zé Osmando e o Júlio Arcoverde. Todos prontamente me escutaram, especialmente o Zé Osmando. Pedi permissão a todos eles para conversarem com a Paula, sobre o papel que a imprensa tem numa hora como essa. Era minha maneira de fazer algo, contribuir para honrar a VIDA plena que ele viveu!

No fim da tarde da quinta, meu pai voltou para casa e o meu irmão, Wellington, passara o dia com ele. Era uma nova vitória pessoal, num caminho tão sofrido para o nosso pai... Na madrugada, outra sem dormir, foi a primeira que chorei como realmente queria chorar, fiquei pensando um monte de coisas sobre um memorial, sobre a vida e a obra dele, Firmino!

Uma vida de AMOR, especialmente por sua família! 

Lucy, Bárbara, Bruno, Cristina, Fidalma e Lousanne, perdoem se me meto aqui no sofrimento de vocês. Mas, uma das coisas que eu gostava no Firmino era que, por termos temperamentos um tanto parecidos, eu não precisava ficar inventando conversa. 

Viajamos muito: para Brasília, uma centena de vezes; Estados Unidos, Buenos Aires, África do Sul, Etiópia e Suécia. Na maioria do tempo, grande parte de vocês iria rir muito de dois tímidos sem falar horas inteiras... uma vez, já em 2019, o Senador Ciro até mencionou algo assim, que sentaríamos uma vida inteira sem chegar a um acordo.

Mas eu o observava!

Em 2013, quando fomos a um evento do Banco Mundial, nos EUA, passamos um dia inteiro atrás de um sapato para você, Lucy, quase perdemos o voo de volta... tinha de ser aquele sapato, não podia ser outro, e achamos! E em todas as viagens havia essas listas, das quais eu ria, sozinho, pelo empenho dele de encontrar tudo que cada um de vocês queria!

Breno, me desculpe, mas uma das cenas mais engraçadas foi num dia, em Brasília, quando ele estava com uma inquietude diferente, até que uma hora recebeu um telefonema e disse depois de desligar: caramba, a Bárbara vai viajar com o namorado, sozinha! Bárbara, me permita, tinha tanto carinho, sentimento e verdade que fiquei pensando, ainda bem que não tenho uma filha, eu não suportaria!

E, Bruno, meu caro, jamais houve uma menção dele a você que não contivesse um misto de orgulho e preocupação. Não esqueça um só momento, ele te amava loucamente!

Cristina, ele tinha muito carinho você. Algumas vezes, de forma espontânea, falava de ti, com brilho bacana, preocupação sincera e amor profundo. Sempre foi muito bonito de ver!

Sei que não sou íntimo da família e peço perdão por essas lembranças, mas precisava evocá-las para introduzir a minha terceira lição: precisamos, todos, pedir desculpas a vocês por termos tomado tanto do marido, pai, filho e irmão. 

Ouso pedir, em nome de todos aqueles que o amam, desculpas a vocês, familiares. Sobretudo a vocês, Bárbara, Bruno e Cristina, que nasceram e viveram nesta confusão entre a vida privada e a posição pública do Firmino. 

Ouso, novamente: não há um só motivo para vocês não se orgulharem de quem ele é e continuará sendo no coração de todos nós!
E com isto, chego à minha quarta e última lição: como grupo político, gestores e pessoas públicas, também não temos um único motivo para não termos orgulho sincero do que construímos sob a liderança dele, Firmino da Silveira Soares Filho.

Mudamos Teresina para melhor: cuidamos de suas praças, avenidas, pontes, zonas urbana e rural, e muito mais importante ainda, cuidamos de suas crianças, jovens, mulheres, adultos e idosos. Como diria o Firmino: fizemos as pequenas, médias e grandes obras para aqueles que mais precisavam de nós!

Não governamos no ressentimento, na maledicência, no ódio e no rancor. Mesmo agredidos, nunca levantamos a voz para agredir ninguém. E sempre, sempre, democraticamente, olhamos adversários políticos como nada além disto, adversários políticos, seres humanos com quem, nas horas mais difíceis, sentamos e tomamos decisões importantes em prol da vida e da cidade.
E peço permissão à família para um agradecimento final: obrigado Iranildes, muito obrigado Iranildes. Por ter cuidado tanto de nosso líder, o Dr. Firmino, como você chamava. Todos nós que trabalhamos e convivemos com ele sabemos as razões deste agradecimento... muito obrigado, de coração!

Enfim, no sábado, a fé amenizou o sofrimento e eu já sabia o que dizer a vocês. No domingo, logo cedo, escrevi e a Andrea, num passeio pela cidade, me ajudou a concluir, citando o Renato Russo:
“Tudo passa, tudo passará.
Tudo passa, tudo passará.

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer

Não olhe para trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos.”


Da Redação
[email protected]

Imprimir