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Graça Targino: Casa da Cultura de Teresina clama por socorro

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Foto: arquivo pessoal

 

A jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidade de Salamanca / Instituto de Iberoamérica, Maria das Graças Targino, escreveu artigo em que faz um alerta sobre as ameaças a Casa da Cultura de Teresina. Após 27 anos como sede no Centro de Teresina, o acervo da instituição foi retirado para outro lugar. 

Leia texto: 

Casa da Cultura de Teresina clama por socorro 
Maria das Graças Targino

Numa prova inconteste de quão preciosas são as iniciativas em prol da cultura dos povos  e das nações, independentemente do sistema político vigente, são sempre numerosos os órgãos voltados ao universo cultural. Por exemplo, em termos de Brasil, tem-se o Ministério da Cultura com uma imensidade de desdobramentos; o Conselho Brasileiro de Entidades Culturais; o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e muitos outros. No Piauí, além das secretarias vinculadas, praticamente, a todas as prefeituras dos 224 municípios, estão em vigor a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), com abrangência estadual, além da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves (FMCMC), em nível da capital Teresina.

Enquanto sobram organizações governamentais e não governamentais, um prédio que faz parte do patrimônio histórico do Piauí, de propriedade da Arquidiocese de Teresina e alugado à Prefeitura Municipal (PM), que honrou seu compromisso contratual até janeiro de 2021, quando nova gestão municipal tomou posse, coincidentemente, fechou suas portas desde então. E o mais grave, por tempo indeterminado. Trata-se da Casa da Cultura de Teresina, abrigo de centenas de estudantes, artistas e intelectuais de todas as estirpes, há 27 anos, ou melhor, desde o dia 12 de agosto de 1994. À frente da Casa da Cultura há mais de uma década, a produtora cultural e psicóloga Josy Brito desde sempre vinha alertando as autoridades competentes de reformas urgentes para evitar a descontinuidade das ações em prol da comunidade. Nada foi feito. 

Enquanto a Igreja São Benedito lança uma justa campanha “Abrace a São Benedito” para evitar a dispersão de seu acervo valioso, a população assiste de braços cruzados, com manifestações aqui e ali, o desmonte da Casa da Cultura. Afinal, se seu público-alvo sempre foi a coletividade como um todo, não importa o nível econômico e social, a bem da verdade, o público efetivo sempre contemplou as faixas populacionais mais carentes, tradicionalmente, sem vez e sem voz, até por sua localização no centro da cidade e pelo acolhimento para lá de amoroso. 

Difícil descrever o imensurável número de atividades desenvolvidas, gratuitamente ou via valores simbólicos: aulas de dança e de balé, incluindo o Balé da Cidade; grupos de teatro; lançamento de livros de autores menos abastados; exposições sistemáticas de diferentes naturezas, a exemplo de coleções sacras, quadros, esculturas e fotografias; mostra permanente de geologia, numismática e paleontologia; rodas de leitura; bibliotecas com acervos destinados a diferentes públicos; videoteca; cineclube semanal e regiamente bem estruturado com cinéfilos estudiosos e comprometidos com a cultura; et cetera. Coleções variadas, a exemplo, das pertencentes aos saudosos historiadores Noé Mendes e Josias C. Carneiro da Silva e, ainda, todo o acervo material, decerto, terão algum destino. Fala-se da remoção de parte do material sacro para o Museu Dom Libório. Fala-se da remoção de parte da coleção em geral para o antigo prédio do Instituto de Previdência Municipal de Teresina. Fala-se e fala-se muito, quando os gestores municipais são esporadicamente questionados. Sua fala, sempre contida e insossa. Ironicamente, a citação recai na pandemia da Covid-19 como se a falta de cuidado com a “coisa” pública datasse de 2019! Ledo engano!  

No entanto, levando em conta os princípios mínimos de planejamento, há uma questão que não quer calar. Se o aluguel devido pela PM à Arquidiocese de Teresina encerra neste mês de julho, o mais sensato e coerente com os valores culturais que enchem as plataformas políticas não seria determinação oficial e prévia do destino da riqueza contida na Casa da Cultura? Dispersa-se para depois decidir o que fazer? E há uma questão ainda mais séria: numa cidade, onde nem sequer existem mais transporte público à disposição da população, onde crianças e jovens ou adultos e velhos poderão ter acesso às manifestações culturais como partícipes? Para onde irá o público-cativo da Casa da Cultura? Para onde? Respondam quem puder! 

Ao tempo em que se reforça a relevância dos direitos da cidadania sobre a estrutura de libertação, não se pode relegar a verdade subjacente a uma cultura nacional ou estadual, autoritária e centralizadora, emaranhada por manipulações, conivências, controles e silêncios. Tais características reduzem as chances de práticas culturais participativas e democráticas nos processos decisórios da sociedade brasileira e, também, retardam o fortalecimento da cidadania, incluindo, obviamente, o universo das políticas públicas em geral, das políticas públicas culturais em especial e das práticas culturais afirmativas. Se a informação é poder econômico, social e político, as instituições culturais devem ser vitais ao progresso do Brasil e dos Estados.

Ou seja, diante da negação de práticas culturais afirmativas, em se tratando das instituições arquivos, bibliotecas e museus, e, no caso especial da querida Casa da Cultura,  impossível perder de vista a adoção de ações culturais verdadeiramente transformadoras, cônscios de que a cultura persiste como tema atual que norteia as relações entre pessoas e grupos sociais no presente e no futuro próximo ou longínquo.

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica. E-mail para contato: [email protected]

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