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Brasileiros compram time inglês e são chamados de 'City da 11ª divisão'

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Em conversa com um cliente, Guilherme Decca, 44, escutou sobre um clube inglês da terceira divisão que estava à venda. Lembrou-se dos anos sentado na arquibancada do Morumbi em jogos do São Paulo e pensou: por que não dar uma olhada?

"Os números eram uma loucura. Um negócio inviável", afirma, ao comentar sobre as dívidas. Como assinou um documento de confidencialidade, não pode revelar o nome da equipe.

Foi o que bastou para ele e o sócio André Ikeda, 35, serem picados pela mosca azul de serem cartolas. Viraram proprietários do Wakefield AFC, que joga a Sheffield & Hallamshire Senior Football League. Tradução: a 11ª divisão do futebol na Inglaterra.

Pareceu a eles a melhor oportunidade para começar um projeto do zero e crescer na pirâmide das ligas do país. Existiam outras possibilidades, mas poderiam ser desastres financeiros.

"Futebol pode ser um péssimo investimento. Vimos vários clubes de divisões diferentes, todos com problemas seríssimos. Deviam muito ou o estádio era de outro, entre outros problemas.

Tem time da 6ª divisão que deve 20 milhões de libras (cerca de R$ 150 milhões pela cotação atual). Isso não existe. Há vários com muita tradição, mais de 100 anos de história, mas sem patrimônio nenhum", comenta Decca.

Os dois brasileiros estão acostumados ao risco e vivem dele. São fundadores da VO2 Capital, empresa familiar que compra títulos e ações globais nos Estados Unidos, onde vivem. É uma gestora que investe em imóveis e empresas não listadas na bolsa de valores (os private equity). Eles ganham uma participação no rendimento obtido pelo cliente.

Não era difícil, então, avaliar o que seria um investimento perigoso demais no futebol.

"Quando analisamos, o Wakefield fazia todo sentido. Está em uma cidade de 350 mil pessoas, em uma divisão lá embaixo, em que podemos errar no começo, e sem dívidas. O que deu mais trabalho foi convencer a minha mulher, que achou uma péssima ideia", explica Decca, se referindo à esposa Veronica.

Wakefield é a maior cidade do Reino Unido sem um clube profissional de futebol. São chamados de "profissionais" os times que estão entre a primeira (a Premier Laegue) e a quarta divisão.

Mas no mundo real não funciona bem assim. Quase todas as equipes da quinta (já considerada semi-profissional) pagam salários aos atletas. O mesmo vale para algumas da sexta.

Um clube da 11ª divisão receber investimento estrangeiro causou desconfiança na cidade. Autoridades e parte dos torcedores tiveram de ser convencidos que os brasileiros não estavam ali apenas pelo lucro, mas por um projeto de longo prazo.

Os adversários ficaram indignados.

"Dizem que nós somos o Manchester City do campeonato, que vamos comprar o acesso", se diverte Decca, até pela graça de elenco de uma liga tão baixa ser comparado a outro que pertence à família real dos Emirados Árabes e foi finalista da Champions League na última temporada.

A tabela não mostra tal superioridade. Os brasileiros assumiram o controle total do Wakefield no mês passado, embora tivessem participação desde agosto. O time ocupa o 8º lugar na tabela. Está a 13 pontos do líder Swinton Athletic, mas tem três jogos a menos.

A preocupação no momento é reforçar a equipe não com jogadores, mas com scouts, gente capaz de cuidar de estatísticas e buscar novos atletas. Oferecer chance a jovens, principalmente os dispensados por clubes maiores, é uma possibilidade. O lateral direito Mason Rubie era do elenco sub-19 do Leeds United, da Premier League.

A ideia é estreitar os laços com a comunidade. Os novos donos procuram terreno para construir um centro de treinamento com dois campos de gramados artificiais.

Espaço que, durante a semana, podem também ser usados por escolas da região. É uma forma também de conseguir torcedores. A média de público nos jogos do Wakefield como mandante é de 600 pessoas.

"Temos um orçamento que será respeitado, sabemos quanto se pode gastar por posição, por jogador. Temos pessoas que têm conhecimento de futebol tocando o projeto. É algo para o longo prazo. Não é para subir sete divisões em sete anos", diz Decca.

Os programadores da VO2 montaram um software para analisar dados dos jogos. As informações são repassadas à comissão técnica. Acostumados com o mercado financeiro, os brasileiros acharam também uma nova e inesperada paixão. Torcer por uma equipe que até pouco tempo atrás nunca tinham ouvido falar e que está em outro continente.

"É mais angustiante do que ver o seu filho jogar. É uma ansiedade que não tem explicação", constata Guilherme Decca.

Eles são a segunda experiência brasileira com propriedade de clubes ingleses. O empresário Diego Lemos fechou negócio para comprar o Morecambe (hoje na terceira divisão) no final de 2016. A experiência durou poucos meses, não foi feito pagamento e Lemos saiu da cidade acusado de não pagar sequer a conta no bar do estádio.

Fonte: Folhapress

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