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'Eles tentaram matar a gente', diz sobrevivente de incêndio na boate Kiss

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 Foto: Polícia Civil do Rio Grande do Sul

O primeiro dia de julgamento pelas 242 mortes no incêndio da boate Kiss, ocorrido em Santa Maria (RS) em janeiro de 2013, começou nesta quarta-feira (1º), em Porto Alegre, com a definição dos jurados e com o relato dos sobreviventes da tragédia –636 pessoas ficaram feridas.

Quatro réus são acusados pelos crimes de homicídio e tentativa de homicídio simples com dolo eventual, quando se assume o risco de matar –os sócios Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, e os integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos (vocalista) e Luciano Bonilha Leão (assistente de palco).

Os depoimentos começaram, na tarde de quarta, ouvindo Kátia Giane Siqueira, funcionária que trabalhava alguns dias por semana na Kiss, geralmente de quinta a sábado. Ela teve 40% do corpo queimado no incêndio e desenvolveu problemas de visão. Ela disse que, depois de passar mal em um hospital de Santa Maria, por dificuldade para respirar, só acordou 21 dias depois internada em Porto Alegre.

Depois de chamar a tragédia algumas vezes de acidente durante suas respostas, Kátia foi questionada pela promotora Lúcia Helena Callegari se reconhecia que os responsáveis pela boate tinham assumidos riscos no local.

"Com todas as coisas que eles fizeram, com a elevação do palco, com a colocação de espuma, eles tentaram matar gente", respondeu ela.

A ex-funcionária da Kiss conhecia cerca de 50 pessoas que morreram em decorrência do incêndio, entre colegas e frequentadores, incluindo uma amiga com quem ela queria se encontrar naquela noite. Ela chegou a pedir dispensa na noite do dia 26 de janeiro, mas não conseguiu porque ouviu de um superior que a casa estaria lotada. Foi realizada no dia a festa "Agromerados", em parceria com turmas universitárias.

Ela contou ainda que já havia visto uso de artefatos pirotécnicos por outras bandas, na Kiss, assim como em garrafas de espumante que eram vendidas no local –mas afirmou que eles não eram muito altos.

Kátia afirmou várias vezes que a casa estava lotada na noite da tragédia, especialmente na região do palco onde ocorria o show, e que viu pessoas confundindo a porta da saída com a dos banheiros, depois do início do fogo. Em outro momento, ela disse que a boate era um labirinto, ressaltando que, mesmo ela, que trabalhava no local, teve dificuldades para encontrar a saída.

Ela relatou também que conseguiu sair porque foi puxada por alguém. A defesa de Elissandro Spohr, conhecido como Kiko, afirmou que a esposa do sócio da Kiss contou em depoimento, em 2013, que viu ele retirando uma funcionária de nome Kátia da boate.

Para Callegari, a promotora do caso, o depoimento ajudou a tese da acusação. "Casa superlotada, não havia cuidado nenhum, havia preocupação apenas em colocar gente, não havia saída, treinamento e se colocou fogo. Se acendia fogo, nunca se preocupou em ter segurança em relação a isso, avisar Bombeiros e Polícia Civil que se iria fazer isso", afirmou.

Kátia é uma das 14 vítimas que devem ser ouvidas nos próximos dias de julgamento, a maioria delas chamadas pela acusação –como não têm obrigação de fazer juramento, as vítimas não são tratadas como testemunhas, segundo o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

Outras 19 testemunhas estão listadas para serem ouvidas pelo júri.

O julgamento foi transferido para a capital gaúcha depois que a defesa de um dos réus, seguido por outros dois, pediu a mudança, alegando que um júri em Santa Maria poderia não garantir imparcialidade, e está sendo conduzido pelo juiz Orlando Faccini Neto.

Familiares de vítimas e sobreviventes chegaram a Porto Alegre no fim da tarde de terça (30), véspera do início do julgamento, em um ônibus. Segundo o presidente da AVTSM (Associação das Vítimas da Tragédia de Santa Maria), Flávio Silva, o grupo passou o caminho todo conversando para tentar controlar o nervosismo.

Ele também comentou sobre a mudança do processo para a capital. "No início nos preocupou muito, a gente até se perguntou: por que eles vão tirar o júri daqui? Eles têm certeza que aqui os réus seriam condenados e pagariam pelos crimes? Isso nos perturbou por muito tempo, mas a gente acredita no Tribunal do Júri, no Conselho de Sentença e tem certeza que a justiça vai ser feita", disse ele a jornalistas.

Com alguns detalhes por definir, a sessão que estava marcada para iniciar às 13h desta quarta acabou atrasando e só começou depois das 14h. Além de Kátia, mais uma vítima está prevista para ser ouvida nesta quarta –uma terceira foi transferida para a quinta (2) de manhã.

A estimativa é que o julgamento como um todo dure entre 10 e 15 dias. Os jurados deverão responder a um questionário elaborado pelo magistrado, que será depositado em uma urna, como voto secreto. A maioria prevalece e, ao final, o juiz profere a sentença.

Pela manhã, foram definidos os sete jurados que fazem parte do chamado Conselho de Sentença –seis homens e uma mulher. Para a advogada Tâmara Biolo Soares, do grupo de apoio da AVTSM, a formação pode fazer parte de uma estratégia das defesas.

"Os sete jurados sabem que a sociedade estará atenta para que haja uma resposta de Justiça, que é a condenação dos quatro réus por homicídio doloso pelas 242 vítimas fatais, e homicídio doloso tentado contra as mais de 630 vítimas sobreviventes", afirmou ela.

Na chegada pela manhã, um dos réus, Luciano, assistente de palco da banda, passou mal. Segundo o advogado dele, Jean Severo, ele teve problema de pressão alta e precisou de atendimento. Luciano foi o único a usar a entrada principal do fórum e disse aos jornalistas que não é assassino.

No início da tarde, antes de voltar ao plenário, Jader Marques, advogado de defesa de Spohr, anunciou a jornalistas que protocolou uma representação no CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) contra a promotora Callegari, depois que ela pediu que pessoas com parentes presos fossem retiradas da lista anual de jurados.

A promotora se manifestou no início da noite dizendo que isso ocorre há anos, e que o Tribunal de Justiça reconheceu que o Ministério Público tem legitimidade para fazer tais consultas.

Fonte: Folhapress

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