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Mãe relata desafios com os filhos na pandemia: "ouvir mais faz diferença"

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Fotos: Renato Andrade/Cidadeverde.com

A pandemia da Covid-19 trouxe mudanças em todo o mundo e agora que os casos da doença caíram drasticamente, ela deixou várias consequências, entre elas o aumento de 25% nos casos de ansiedade. Esse aumento afetou principalmente as mães, que além da mudança na rotina, tiveram que ver os filhos enfrentando problemas de saúde causados pela pandemia.

É o caso da assessora parlamentar Daniele Leão que viu a sua vida mudar completamente, quando a filha Izabela, de 16 anos, que está no 1° ano do ensino médio e Daniel, de 7 anos, que está no 2° ano do ensino fundamental, tiveram que ficar em casa.

“Na minha casa houve ganhos e perdas. O Daniel aprendeu a ler e a escrever mais rápido, por ter um acompanhamento individual escolar, eu estudava com ele. Já com a Iza, que já é uma adolescente, teve a descoberta da tecnologia como ferramenta para o estudo. Agora também teve perdas, pois a sociabilidade deles ficou bem prejudicada, o Daniel passou a ter muito acesso à internet e menos interações físicas, e a Izabela ficou muito tempo dentro do quarto e o uso do celular aumentou drasticamente. A pandemia também trouxe consequências silenciosas, notei que a ansiedade deles ficou muito alta, a ponto de buscar conselhos de um profissional”, afirmou Daniele.

A mudança no comportamento devido ao distanciamento social que foi imposto, fez Daniele buscar ajuda de um psicólogo para ajudar os filhos após perceber mudanças no comportamento.

“Eles apresentaram sintomas de grande ansiedade, principalmente a adolescente. Sinal que a interação social tem um fator determinante maior que imaginávamos. Acredito que os medos em torno de uma doença que é contraída de uma forma invisível, que pode vir de qualquer lugar e pode levar a morte, nos afetou de alguma forma. No Daniel notei uma perda na concentração, muita preocupação na hora que tinha que sair de casa e o alívio assim que tomou a vacina. A primeira pergunta foi se já poderia pegar no corrimão do hospital. A adolescente teve insônia e ficou muito nervosa depois de uma apresentação que ela achou que não foi bem na escola”, relatou.

A mudança na rotina também foi um grande desafio para ela, que passou a trabalhar de casa, teve que ajudar os filhos com as atividades escolares e ainda teve que realizar atividades domésticas.

“Minha rotina ficou bem mais cansativa, porque logo cedo era organizando dois ambientes para cada um assistir aula online, e enquanto assistia aula com o Daniel, também fazia as atividades domésticas e a comida. A tarde tinha uma parte mais recreativa com eles, conciliando com o meu trabalho que passou a ser online também. Apesar de ter atividades compartilhadas com meu esposo e com a filha mais velha, parece que o trabalho em casa aumentou. O ambiente familiar teve um ganho, mais próximos, mais desacelerados, com mais paciência para ouvir um ao outro”, explicou.

Ela afirmou que todas essas mudanças e ainda passar por isso durante a pandemia a deixou com muito medo, mas que após buscar ajuda de um profissional, a família está conseguindo passar junta por todos esses problemas que surgiram devido a pandemia.

“Depois que vimos esses sinais buscamos ajuda profissional com uma psicóloga, procuramos ter um acolhimento maior, aumentamos as interações em família e observando mais cada atitude. Descobrimos que ouvir mais faz muita diferença”, destacou.

A ansiedade e suas consequências

De acordo com um resumo científico divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no dia 2 de março deste ano, no primeiro ano da pandemia os casos de ansiedade e de depressão aumentaram em 25%.

Segundo a psicóloga Thayse Menezes, o ser humano precisa da ansiedade, mas a partir do momento que afeta o desenvolvimento da pessoa, surgindo problemas como alteração no sono, no apetite, deixar de fazer as atividades que gostava, agitação ou introspecção, assim como transtorno de pânico, é necessário buscar ajudar.

“A pandemia não trouxe a ansiedade, ela já existia, mas ficou mais potencializado, pois fomos colocados em uma situação de extrema dificuldade. Ninguém foi preparado para isso, a ter um distanciamento, então teve uma mudança completa da rotina e isso ficou mais evidente. A procura por ajuda aumentou bastante, porque as pessoas começaram a se voltar para esse lado da saúde mental. A procura com certeza aumentou e uma das principais causas é a ansiedade”, afirmou.

Não só as crianças foram afetadas, mas os próprios pais que precisaram acompanhar as mudanças nos filhos. Thayse Meneses afirmou que os pais não devem ter esse sentimento de culpa.

“Os pais se sentem muito culpados, que deveriam ter feito algo para o filho não chegar a esse ponto, mas a gente não pode focar em quem é culpado. No momento do tratamento e pedido de ajuda não existe perfeição. Os pais também precisam ter esse autocuidado, esse momento para eles, não será perda de tempo, pois pais ansiosos, a probabilidade de ter filhos ansiosos é maior. Muitos pais não passavam tanto tempo em casa, muitos viajavam e não tinha essa convivência com família, então aquela rotina se tornou angustiante para os pais, eles chegaram a esse ponto de culpabilidade, fora o estresse por questão financeira, então muitos pais também apareceram pedindo ajuda”, relatou.

Sintomas

São vários os sintomas que os pais podem ficar atentos para perceber se existe a necessidade de buscar ajuda.

“Em crianças e adolescentes isso é muito manifestado na escola. Existe um baixo rendimento, dificuldade da socialização, um prejuízo no que se refere ao desenvolvimento, dificuldade de atenção e concentração, uma comparação com os outros, então quando houver essa alteração e tiver prejudicando, é preciso buscar ajuda especializada. Muitas vezes começa com o psicólogo e pode ser necessário encaminhar para a psiquiatria, que é o médico que pode prescrever a medicação, para trabalhar em conjunto e trazer resultados favoráveis”, destacou Thayse Meneses.

Devido a Covid-19, o Transtorno de Pânico e o Transtorno Obsessivo Compulsivo estão aparecendo entre os problemas mais recorrentes relacionados à ansiedade.

“O Transtorno do Pânico, muito ligado na questão do luto, muitas famílias que tiveram não só um caso de luto, tiveram essa ansiedade totalmente excessiva. Também teve uma questão do TOC, que é um Transtorno Obsessivo Compulsivo que está ligado na questão da limpeza, porque tinha que higienizar, manter a prevenção para não pegar doença então isso se tornou mais acentuado, essas duas patologias foram mais recorrentes”, explicou a psicóloga.


 

Mudança na rotina ajuda

Uma mudança na rotina pode ser importante para ajudar nesse processo de ansiedade. Com a pandemia, a socialização e o lazer foram afetados, por isso é importante voltar a ter esses momentos.

“É importante ter esse lazer. Antes da pandemia era só se desse, porque a rotina da criança já estava toda estabelecida. Depois os pais começaram a observar e com esse tempo em casa, que precisava desse momento para a criança relaxar, para trazer essa distração e divertimento, então isso já vai mudando e a ansiedade diminuindo. A socialização também, quando voltaram as aulas presenciais, as crianças já foram percebendo uma certa melhora. Agora é claro, mudou a rotina, mesmo com as mudanças de lazer e socialização, se permanece apresentando de forma frequente e apresentando um prejuízo, aí a gente faz a avaliação, vai na escola, conversa com a família e observamos, se precisa também de médico psiquiatra”, afirmou.

Bárbara Rodrigues
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