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Manifestação pacífica traz alívio, mas economia ainda preocupa empresários

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Foto: Ton Molina/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Empresários de diferentes setores ouvidos pela reportagem entendem que as declarações do presidente Jair Bolsonaro (PL) no 7 de Setembro, assim como as manifestações de apoiadores em diferentes capitais do país, ficaram dentro do esperado e relatam certo alívio por não terem inflamado apoiadores a um comportamento agressivo ou de ruptura com os demais Poderes da República, como em discursos anteriores.

Mas o sentimento é de apreensão com as próximas semanas, até as eleições, marcadas para o dia 2 de outubro, assim como os rumos da economia e a capacidade do Brasil de atrair e reter investidores.

"O ambiente de incertezas causado pela ameaça de golpe do atual presidente limita os investimentos", afirma João Paulo Pacífico, fundador do Grupo Gaia, que atua no mercado financeiro.

"Os investidores externos têm uma imagem péssima do país por conta do Bolsonaro, e acabam evitando o Brasil", afirma. Na opinião de Pacífico, há "ignorância" de parte do setor privado quanto ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que reflete falas de Bolsonaro.

"Levantamos recursos de forma super séria e diligente para cooperativas de alimentos ligadas ao movimento, mas algumas empresas não querem sequer ouvir o que eles fazem", afirma. "É um empresariado que tem certa afinidade com o discurso preconceituoso e raso do presidente."

Pacífico considerou "vergonhosa" a fala de Bolsonaro sobre o "imbrochável", ao lado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. "Sua fala mostrou uma masculinidade frágil e tóxica, que tenta engajar aqueles sem senso crítico que o consideram um 'mito'", disse.

"Fazer do evento de comemoração do Bicentenário da Independência um comício, segundo juristas, é crime, assim como ter falas que incentivem o descumprimento da lei e da ordem", disse Pacífico. "Mas nada disso é novidade. Ele já o faz desde que tomou posse."

Um alto executivo da indústria automobilística, que prefere manter o anonimato, afirmou que a instabilidade política aumentou muito a volatilidade do mercado neste ano. Mas, como a empresa é uma investidora de longo prazo do país, mantém as operações brasileiras.

No setor automobilístico, a alemã Mercedes-Benz anunciou esta semana demissão de 3.600 trabalhadores da sua fábrica de São Bernardo do Campo (SP), com a terceirização de parte da sua produção. Em janeiro do ano passado, a Ford anunciou o fim da produção no Brasil. Em abril deste ano, a Toyota decidiu fechar sua fábrica em São Bernardo do Campo, a primeira fora do Japão.

Ajuste de polarização

Paulo Solmucci Júnior, presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), afirma ter ficado "muito feliz" em saber que as manifestações do 7 de Setembro "transcorreram sem desordem ou algo mais grave". Ele disse não ter visto o discurso de Bolsonaro.

"Esperava um clima mais tenso, mas parece que estamos aceitando ou entendendo melhor este momento de polarização e nos ajustando a ele", afirmou.

Para o executivo, as taxas de juros e câmbio, que no passado refletiram insegurança do mercado, agora estão comportadas. "As empresas estão investindo e contratando. Mas há um grande incômodo no que está sendo chamado de revisão da reforma trabalhista", diz. "O teto de gastos já foi para o brejo na fala de todos [os candidatos], esperamos que o juízo prevaleça nas escolhas do rearranjo fiscal", afirmou.

Na opinião de Rafael Cervone, presidente do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), a data de 7 de setembro tomou vulto em ano eleitoral, deixando de lado seu real significado em várias ocasiões.

"Que o próximo presidente, seja quem for escolhido pelo povo, defenda a liberdade e pense o Brasil no longo prazo, com especial cuidado com a educação e sob clima de paz", afirmou.
Já Igor Morais, presidente da rede de franquias Kings Sneakers, de moda streetwear, acredita que as manifestações pacíficas, sem "fanatismo", são uma mostra de maturidade política.

"Mas o ano eleitoral influencia os negócios, há posicionamentos e promessas que podem mexer com o futuro do país", afirma o empresário que, diferentemente dos demais entrevistados, não gosta da ideia de um empresário apoiar abertamente um político -como no caso de Luciano Hang, dono da rede de lojas de departamento Havan.

"Parece que você está apoiando para ganhar algo em troca e não acho isso legal."

Já um alto executivo da indústria alimentícia, que prefere se manter em anonimato, apoiador de Jair Bolsonaro, disse que o ambiente eleitoral só está tenso porque as instituições não cumprem o seu papel - especialmente o STF (Supremo Tribunal Federal) que, segundo ele, vem tomando decisões monocráticas, entrando na alçada de outros Poderes.
 

Empresas x processo eleitoral

Pesquisa realizada pelo Instituto Ethos, entre junho e julho deste ano, aponta que 90% das empresas enxergam riscos reputacionais no envolvimento com o tema processo eleitoral. Entre as entrevistadas, 85% afirmaram não dispor de uma política interna exclusiva para tratar da questão.

O instituto lançou neste ano um guia para auxiliar as empresas sobre como atuar de forma ética e responsável nas eleições.

Para Caio Magri, presidente do Instituto Ethos -que fomenta os conceitos de responsabilidade ambiental, social e corporativa (ESG) nas empresas e soma 454 associadas, entre elas Natura, Grupo Pão de Açúcar, Carrefour e Renner-, a participação de empresários e executivos em um processo eleitoral deve estar em sintonia com o que eles querem para o país e para a sustentabilidade das suas respectivas empresas.

"Quem está enfrentando o efeito estufa e investindo na redução do impacto ambiental das suas operações não pode conviver com um governo que tenha políticas negacionistas", afirma.

"Causas precisam ser apoiadas e, se alguma candidatura defende essa causa, é natural o apoio das lideranças empresariais."

Na opinião de Magri, o cenário econômico global será cada vez mais crítico, o que requer lideranças empresariais, governo e sociedade caminhando juntos na mesma direção, do desenvolvimento sustentável. "Esta é a década da ação, é preciso agir juntos para chegarmos coletivamente a uma perspectiva mais resiliente, que possa superar as crises simultâneas que estamos vivendo."

Investidores sobre manifestações

A percepção de agentes do mercado ouvidos pela reportagem é a de que as declarações de Bolsonaro e as manifestações não trouxeram um fato novo com peso suficiente para causar algum impacto mais negativo para os preços dos ativos no mercado financeiro brasileiro.

"A novidade é que não teve nenhum problema, já que muita gente tinha a expectativa de que aconteceria algo neste 7 de Setembro", diz Luiz Fernando Figueiredo, CEO da gestora Mauá Capital.

"Acho que é um motivo para o mercado ficar um pouco mais tranquilo na abertura de amanhã [quinta, 8]", acrescenta o ex-diretor do BC (Banco Central).

Sócio da gestora Adam Capital, André Salgado afirma que o mercado está tratando as eleições de maneira equilibrada, ponderando aspectos positivos e negativos de cada um dos dois principais candidatos que, "na soma, são equivalentes".

"Acho que as manifestações podem diminuir a diferença em favor de Bolsonaro, mas ainda com margem maior para Lula, pelo menos por enquanto", afirma Salgado.

"O mercado já chegou a discutir como risco algum tipo de ruptura institucional. Mas a percepção é que essa probabilidade tem diminuído", endossa Rafael Ihara, sócio e economista-chefe da Meraki Capital.

Leandro Saliba, sócio da gestora mineira AF Invest, interpreta as manifestações de maneira mais positiva. Ele diz que o tamanho dos atos deve ser bem recebido pelo mercado, pela perspectiva de uma condução econômica de caráter mais liberal em um cenário de reeleição.

Economista-chefe da corretora Necton, André Perfeito também não viu nas manifestações algo que pudesse alterar de maneira relevante o sentimento dos investidores em relação ao desempenho do mercado.

"Acho que não teremos nenhum grande ruído, nem para cima nem para baixo", afirma Perfeito. O economista acrescenta que os movimentos do mercado local devem seguir sob maior influência dos fatores macroeconômicos globais.

A própria alta das ações brasileiras no exterior vem na esteira da valorização das principais Bolsas americanas nesta quarta -o S&P 500 avançou 1,83%, o Dow Jones teve ganhos de 1,1,40%, e o Nasdaq subiu 2,14%. Os ADRs (American Depositary Receipts) da Petrobras, que chegaram a cair mais de 2% no início da sessão desta quarta, fecharam com leve alta de 0,2%.

A perspectiva de desaceleração da economia global contribui para uma menor necessidade de aumento dos juros, com um horizonte que passa a se desenhar mais favorável para as ações de empresas negociadas nas Bolsas, diz o economista da Necton.

Relatório publicado nesta quarta pelo Federal Reserve (banco central dos EUA) conhecido como Livro Bege reforçou esse cenário, ao mostrar que as empresas relataram algum alívio na escassez de mão de obra e nas pressões sobre os preços.

"As condições gerais do mercado de trabalho permaneceram apertadas, embora quase todos os distritos tenham destacado alguma melhora na disponibilidade de mão de obra", disse o Fed no relatório em que analisa as condições macroeconômicas americanas.


Fonte: Daniele Madureira e Lucas Bombana

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