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Trump anuncia pré-candidatura à Presidência dos EUA em 2024

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Foto: Isac Nóbrega/PR

Mais trumpista impossível. Contrariando as expectativas, conselhos de aliados e as pressões internas dentro do Partido Republicano, Donald Trump anunciou na noite desta terça-feira (15), em evento em seu resort de Mar-a-Lago, que vai se candidatar mais uma vez a presidente dos Estados Unidos.

"Para fazer dos EUA um país grande de novo, anuncio nesta noite minha candidatura para presidente", afirmou, em um salão cheio de apoiadores, com faixas com o lema "Make America Great Again".

Adiantando o clima de 2024, o atual presidente, Joe Biden, publicou no Twitter vídeo com críticas à gestão do antecessor com a legenda "Donald Trump falhou com os Estados Unidos". A postagem foi feita enquanto ele debatia, na Indonésia, a explosão na Polônia que elevou tensões na Guerra da Ucrânia e outros temas da cúpula do G20.

No discurso em que anunciou a candidatura, Trump, que já sofreu dois impeachments na Câmara e é alvo de uma série de investigações, atacou a gestão do atual presidente, fez troça de gafes do democrata e afirmou que o país perdeu prestígio desde que ele deixou o poder. "Dois anos atrás éramos uma grande nação, e em breve seremos uma grande nação outra vez."

O anúncio acontece exatamente uma semana depois das midterms, as eleições de meio de mandato, que elegeram uma série de governadores e senadores e renovaram a Câmara. O resultado do pleito foi bem abaixo das expectativas para os republicanos, já que a esperada "onda vermelha" que daria maioria à legenda no Legislativo nunca chegou.

Os democratas conseguiram manter maioria no Senado; na Câmara, a situação ainda está indefinida, mas a provável maioria republicana será muito mais modesta do que o esperado.

O ex-presidente reconheceu as derrotas no discurso desta terça -sem questionar os resultados das urnas, como vem fazendo desde 2020 em relação ao pleito que perdeu- e afirmou que os eleitores "ainda não perceberam a extensão e a gravidade da dor que a nação tem atravessado", mas que em 2024, quando concorrerá, "os votos serão muito diferentes."

É justamente Trump quem tem sido apontado como um dos responsáveis pelo resultado ruim da legenda nas midterms. Ele não conseguiu eleger nenhum de seus candidatos nos estados considerados essenciais para controlar o Senado: Pensilvânia, Arizona, Nevada e Geórgia.

Todos eles tinham como candidatos trumpistas ferrenhos, e, com exceção de Nevada, onde Adam Laxalt foi procurador-geral (cargo que por lá é eleito), sem experiência política. O apresentador de TV Mehmet Oz foi derrotado na Pensilvânia e o empresário Blake Masters, no Arizona. A única disputa aberta é a da Geórgia, que tem segundo turno, mas o ex-jogador de futebol americano Herschel Walker ficou em segundo lugar na primeira rodada.

Também houve derrota de trumpistas nas eleições para governador em estados importantes -a mais recente no próprio Arizona, com a apresentadora de TV Kari Lake- e de candidatos que negam que Trump tenha perdido em 2020.

É claro que o republicano teve também algumas vitórias, mas todas elas eram de algum modo esperadas, como a eleição de sua ex-secretária de imprensa Sarah Sanders para o governo de Arkansas. Em Ohio, Trump conseguiu eleger ao Senado o autor de best-sellers sobre finanças JD Vance, um nome novo e fiel.

Mas o inegável desempenho abaixo do esperado fez com que o partido procurasse alguém para culpar. Os republicanos acusam o ex-presidente de impulsionar, com muito dinheiro e capital político, candidatos ruins, radicais de ultradireita e sem experiência, o que afastou moderados na hora da votação.

A mostra mais recente dessa resistência veio na manhã desta terça, em encontro anual de governadores republicanos. No evento, o ex-governador de Nova Jersey Chris Christie, antigo aliado de Trump, foi fortemente aplaudido ao culpar o ex-presidente pelo resultado ruim em três eleições seguidas -nas midterms de 2018 e de agora e nas presidenciais de 2020.

Com tudo isso, aliados vinham tentando pressionar o ex-presidente a adiar o lançamento da candidatura. Trump queria tê-la anunciado ainda no meio das midterms, mas foi convencido a aguardar o resultado. Depois, houve a pressão para que esperasse a definição do segundo turno na Geórgia, em 6 de dezembro. Mas Trump ignorou novamente e disparou alerta à imprensa de que faria o grande anúncio nesta terça.

Com o anúncio, ele busca marcar posição e afastar adversários dentro do partido -mais claramente Ron DeSantis. O governador da Flórida acaba de ser reeleito, com expressiva margem, se consolidando internamente. Trump sabe que o rival é forte e já piscou, em tom de ameaça, que o correligionário não deveria se candidatar contra ele. "Eu diria muitas coisas sobre ele que não são muito lisonjeiras. Sei mais sobre ele do que qualquer pessoa", afirmou à Fox News.

Outra pessoa que Trump busca afastar é seu ex vice, Mike Pence -hoje tido como um traidor por radicais trumpistas por não ter embarcado na tentativa de golpe para impedir a posse de Biden.

Pence está em turnê promovendo seu novo livro, "So Help Me God", e tem dado entrevistas indicando que estuda concorrer em 2024.

Há ainda outros nomes com menos tração, como o da deputada Liz Cheney, filha do poderoso ex-vice-presidente Dick Cheney (2001-2009), que foi obliterada e perdeu as primárias do partido neste ano após se posicionar de maneira firme contra o ex-presidente no Congresso.

Mas ainda há um longo caminho até a candidatura de fato, já que os partidos fazem primárias para definir quem estará nas urnas.

Com o anúncio a dois anos do pleito, Trump procura também constranger investigações de que é alvo por envolvimento na invasão do Capitólio e por levar documentos ultrassecretos para sua casa na Flórida quando deixou o cargo –ele quer fazer colar a ideia de que as apurações são uma manobra política do governo Biden contra um adversário eleitoral.

Mesmo que pareça enfraquecido agora, dois anos são uma eternidade no mundo político, e tudo pode acontecer com até 2024, quando Trump terá 78 anos -inclusive ver avançar os processos.

Até lá, também precisa encontrar a melhor maneira de conversar com o eleitorado, que se mostrou na última semana menos tolerante a radicais.

De todo modo, ele ainda desfruta de apoio interno. Pesquisa de boca de urna da CNN nas midterms apontou que 77% dos eleitores identificados com o Partido Republicano têm visão favorável do ex-presidente. O número, porém, cai para 30% entre os que se dizem independentes -e para 4% entre os democratas.

 

Fonte: Folhapress (Thiago Amâncio) 

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