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Estrutura de faculdades de fora serve de exemplo para o Piauí

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Fábio Lima/Cidadeverde.com

Fernanda, Nilo, e Hayssa: todos os medalhistas do Piauí nos Jogos
ganham bolsas de estudo nas faculdades em que estudam
 
Das quatro medalhas conquistadas pela delegação piauiense nas Olimpíadas Universitárias, três ficaram na Face, faculdade no Centro de Teresina onde a judoca Hayssa Ewellin (ouro) e a velocista Fernanda Araújo (ouro e prata) cursam Educação Física - a outra, de bronze, veio com Nilo Carvalho, judoca bolsista da Faesf, de Floriano. Todos ganham bolsa de estudos da instituição, e treinam em seus respectivos clubes. Se colocarmos na balança a diferença de estrutura e apoio que as concorrentes delas em Fortaleza/CE ostentavam, as medalhas das piauienses pesam ainda mais. Apoio dos técnicos e de amigos, a ajuda das faculdades, e acima de tudo superação são a marca de todo o desporto universitário do Piauí.
 

Com dois ouros, uma prata e um bronze, o Piauí ficou com 22º lugar geral entre 26 estados e o Distrito Federal nas Olimpíadas Universitárias.

O evento realizado na última semana é um exemplo de como o Piauí ainda está devendo no desporto universitário, ou melhor, de como as instituições de ensino públicas e privadas ainda devem a seus alunos, vários deles atletas com resultados nacionais expressivos, que sequer bolsa parcial de estudos possuem como forma de patrocínio. Nos esportes coletivos, o melhor resultado foi um empate no futsal masculino, por sinal o único atendido por projeto específico para valorização de atletas no Piauí. É do Ceut a equipe que domina a modalidade no Estado, formada por alunos bolsistas da instituição, com técnico específico para os treinamentos da modalidade - é o Aluno Atleta, que apoia também judocas. No âmbito estadual, a hegemonia é visível. Quando se sai do solo piauiense, a equipe sabe que o projeto ainda está em evolução e precisa melhorar. Afinal, eles contam com algo que a maioria dos atletas do Estado não possuem.

Reigiane é do Piauí e usa quimono da Unisul, de Santa Catarina;
Faculdade paga estudos, aluguel de apartamento, e até passagens

Era o caso de Reigiane Silva, judoca piauiense que levou a medalha de prata nas Olimpíadas Universitárias, mas defendendo a Unisul, de Palhoça/SC. Ela deixou Teresina no final de 2007 para treinar na FTC, em Salvador/BA, e lá já encontrava o apoio que não tinha em Teresina, onde tinha de pagar o curso de Fisioterapia. No sul do país, ela não gasta com mensalidade, apartamento, passagens para viagens, e até mesmo alimentação. São dois técnicos para comandar cerca de 30 judocas, alguns deles com participações em eventos internacionais, como a Universíade, os jogos mundiais universitários.
 
As outras modalidades ainda contam com parque aquático e academia. Todos foram para Fortaleza uniformizados, acompanhados até por um jornalista formado na instituição, que ao lado de um cinegrafista documentou toda a participação dos atletas da Unisul nas competições. Parece muito, mas Reigiane não vê como inatingível para a realidade piauiense. "Impossível não é, mas acho que mais é falta de interesse. Se essas faculdades conseguiram fazer isso, por que o Piauí não pode conseguir?", indaga a judoca.
 
Faculdades investem pesado para irem aos Jogos
O "isso" ao qual se refere Reigiane deveria ser no plural. Universidades com fortes times no Handebol se contentavam com o vice-campeonato nos jogos com a frase "perdemos para um time de liga". Algumas equipes coletivas não representam apenas suas faculdades nos torneios universitários, mas seus estados em competições nacionais. Todas fazem questão de uniformizar os atletas e exibirem suas marcas, o que contribui para exaltar seu poderio, como os atletas da Faculdade Maurício de Nassau, de Pernambuco. Diariamente todos vestiam a camisa com a frase "Sou atleta Nassau". No evento era possível ver corredores como Hudson de Sousa, ouro em duas provas de longa distância nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, e até mesmo titulares do Brasil no último Mundial de Desportos Aquáticos.


De mãe piauiense, Cristian comanda super time de natação na
Bahia;
Cada aluno atleta tem seu próprio treinador na FTC

 
Alguns desses nadadores treinam em outro exemplo a ser seguido, que vem de Salvador. A FTC, que já levou o judoca Benito Mussolini Neto e outros nomes da modalidade para a Bahia, não dependeu de importações para montar a segunda equipe mais forte da natação universitária brasileira. Tudo planejado por um técnico de mãe piauiense de Piripiri. Formado na instituição, Cristian Giammarino é o coordenador de natação da equipe composta por 23 atletas, e que quer crescer ainda mais.
 
"Nós temos 17 homens e o limite nas Olimpíadas Universitárias é de 15. Mesmo assim, queremos ter mais nadadores", conta o técnico, que iniciou o trabalho há oito anos. Hoje integram o time Luís Rogério Arapiraca e Marco Antonio Sapucaia, que defenderam o país no Mundial de Roma, na Itália, e competiram em Fortaleza.
 
O projeto inclui bolsas de estudo que vão de 30% a 100%, que podem ser pleiteadas por qualquer atleta. Não há número limite. Em alguns casos, os atletas treinam em seus clubes e usam a marca da FTC como um patrocinador. Cada um dos 23 nadadores, segundo Giammarino, possui seu próprio técnico contratado pela faculdade. Com isso, o time saiu do oitavo para o segundo lugar em quatro anos consecutivos nas Olimpíadas Universitárias. "Só perdemos para a Unip/SP, porque eles têm hoje muitos dos melhores nadadores do país", relata o treinador.


Jânio Silva, presidente da Faep, premia feras da natação com uniformes de
grandes times. Ao seu lado, Marco Sapucaia, que foi ao Mundial de Natação

 
Perspectivas
O futuro para uma mudança no Piauí dá sinais tímidos de melhora. Já existem estudos para se ampliar o Aluno Atleta do Ceut, formando equipes de bolsistas da Natação e Atletismo. A idéia ainda pede ampliação no parque esportivo da instituição, restrito hoje ao ginásio, e pode beneficiar Camila Ravenna, aluna da faculdade e nadadora de melhor desempenho do Estado nos Jogos, disputando duas finais.
 
Quem terá condições para começar a formar equipes é a Novafapi, que deve montar em breve instalações esportivas para seu curso de Educação Física. Atualmente, a ação direta da faculdade no setor é o projeto de extensão de atenção à saúde de atletas. Alunos e professores dos cursos de Fisioterapia e Medicina acompanham nomes de diversas modalidades. Uma assistência que faltava ao esporte piauiense, e também é realizada durante competições locais pela Facid, instituição que já acompanhou jogadores de futebol do River.
 
Não se há notícia ainda, no entanto, de mais projetos para apoio específico aos atletas, como ocorre no resto do país. Nas instituições públicas, onde a bolsa de estudos é desnecessária, o problema ainda é de incentivo à prática esportiva e estrutural, em especial para o Atletismo. Ainda assim, é nas pistas da UFPI e UESPI que os principais nomes da modalidade treinam, mesmo que nelas não estudem. A piscina da UFPI é uma das duas únicas olímpicas no Estado - a outra fica no Jockey -, e dela vieram maior parte dos nadadores da delegação piauiense. Foram das universidades também que saíram maioria das equipes das modalidades coletivas.
 
Enquanto isso, o esforço de atletas e da Federação Acadêmica de Esportes do Piauí - Faep -, com ajuda de poder público e apoios privados, consegue manter o desporto universitário no Estado de forma desbravadora. Sob comando de Jânio Silva, a instituição já mantém eventos estaduais que vão além da seletiva para as Olimpíadas Universitárias, sempre com a presença de faculdades do interior do Estado, e agora se prepara para sediar torneios interestaduais. 

Fábio Lima - reportagem especial e fotos
[email protected]

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