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"Que saiam do cinema com a energia do Torquato", diz diretor do filme em Teresina

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Foto: Laís Barradas

Eduardo Ades, um dos diretores do filme "Torquato Neto: todas as horas do fim, já está em Teresina e adianta: "Não é um filme pra baixo, é um documentário que emociona, que as pessoas saiam do cinema com energia do Torquato".   

Neste sábado (10), haverá uma exibição especial no Teresina Shopping com a presença de Eduardo Ades que vai falar sobre a produção do filme. Quarenta e cinco anos depois de sua morte, Torquato Neto,  um dos ícones do movimento Tropicalismo, emociona público pelo Brasil. O filme que teve estreia nacionalmente dia 8 de março é dirigido por Eduardo Ades e Marcus Fernando.

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Ao desembarcar em Teresina, o Cidadeverde.com teve uma conversa rápida com Eduardo Ades. Veja abaixo: 

 Como está a receptividade do público ao documentário?

A gente tem tido a melhor resposta possível do documentário com resultado que nos deixa muito feliz. O filme foi lançado há seis meses no festival do Rio, teve uma ótima recepção e fomos selecionados para mais de 15 festivais, ganhamos nove prêmios em vários deles. O documentário está tendo reconhecimento tanto do público, que percebemos nas saídas das sessões, quanto nas curadorias e também dos jurados, alguns prêmios são de júri popular. Agora estamos percebendo pelas críticas que realmente conseguimos transmitir a emoção com que Torquato nos marcou. Quando as críticas estão surgindo a gente percebe que essa emoção do Torquato chegou.

Exibir o documentário na terra de Torquato é uma expectativa diferente?

Com certeza. Estamos curiosos para saber como o filme vai acontecer aqui em Teresina. O Torquato fala de Teresina na vida inteira dele. Teresina é o berço, é de onde ele sai, pra onde ele volta sempre. Teresina está presente no longo do filme inteiro, seja com imagens, seja com textos que Torquato escreve que colocamos no filme, e é o local onde Torquato é mais conhecido no Brasil. Então, a gente quer saber como Teresina, que conhece Torquato, que tem Torquato quase como íntimo, como Teresina sente o filme. Estamos curiosos e felizes pelo filme ser lançado aqui.

Recentemente o Xico Sá disse que "O Brasil precisa descobrir Torquato". O filme ajuda em que aspecto a colocar luz na obra de Torquato?

O Brasil precisa conhecer Torquato lendo também. Tivemos a felicidade de ter como referência dois livros recentes que falam da vida dele, mas até como Torquato fala naquela entrevista em áudio que foi encontrada. Ele fala: "Não acho que a poesia de livros seja menos importante, mas a poesia de letra de música ela tem o poder de alcance maior". A gente acha um pouco isso e é parecido com cinema. Não é que os livros sejam desimportante, acho até que os livros são mais importantes, pra conhecer o Torquato, mas o cinema tem esse poder de chegar a um público maior e atingir diretamente a emoção do telespectador.  Tem imagem, tem som, tem uma diferença de imersão nessa sensibilidade dele.

Você passou esse tempo pesquisando a obra de Torquato, o que ele impactou em sua vida?

Impacta muito, especialmente a força da transgressão, do inconformismo. Acho que são valores muito importantes. A defesa intransigente da liberdade, a liberdade de criar, que é até um princípio tropicalista. Mesmo acabando com a Tropicália, ele não abandona esse princípio, essa liberdade de criar e de propor rupturas. Isso é muito importante ainda mais nesse momento que vivemos no Brasil. Hoje há uma certa apatia, naquele momento havia uma asfixia imposta pela ditadura militar e ele naquele ambiente de asfixia, ele estava encontrando, ocupando as brechas, encontrando espaços, ocupando. Hoje a gente não tem asfixia, mas tem uma apatia muito grande que ela é paralisante também. É importante que Torquato esteja nos cinemas hoje falando isso para as plateias. Vamos encontrar brechas, vamos lembrar de respirar, de falar e desafinar o coro dos contentes.

Mais de quarenta anos de sua morte, o Torquato ainda é atual e o que apontaria como legado?

Certamente o grande legado de Torquato seja a transgressão e o inconformismo, de poder botar o dedo na ferida, como ele fala: "onde existe uma ferida meu dedo encaixa nela". Isso é muito importante e essa defesa intransigente da liberdade. Mas, acima de tudo essa energia muito explosiva, muito vital de criação, mesmo a pessoa estar ali atormentada por suas questões existenciais, é uma presença muito enérgica, é uma produção muito enérgica. Isso é importante. Não é um filme pra baixo, é um documentário que emociona, que as pessoas saiam do cinema com energia do Torquato".

Que depoimento vocês queriam que estivesse no documentário e não conseguiram?

O projeto inicial a gente tinha ideia de entrevistar uma quantidade muito maior de pessoas, mas por incompatibilidade de agenda, a gente acabou não conseguindo. Mesmo assim até pessoas que a gente entrevistou, saiu da montagem porque não cabe num filme de uma hora e meia. Então, no fim das contas o filme é o que ele é, e não faz mais falta. Obvio que assim, até pensando num ponto de vista hipotético, adoraria ter o depoimento de Salomé (mãe de Torquato), seria essencial. É uma das figuras mais importantes da vida dele, na vida de quase todos, mas de Torquato é uma presença marcante para ele. Enfim, se a gente não tem essa possibilidade até porque ela não estava viva quando filmamos, a gente supre essa lacunas de outras formas.  

Yala Sena
yalasena@cidadeverde.com

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