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Sucesso dos anos 1980, Campeonato Italiano busca seu renascimento

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Quando a década de 1980 chegou ao fim, o Campeonato Italiano era o mais valioso do futebol mundial. Nenhuma outra liga chegava perto. Quase 30 anos depois, os times do país ainda tentam descobrir como recuperar o terreno perdido para Inglaterra, Espanha e Alemanha.

Apenas em 2017 a Uefa voltou a dar aos clubes italianos quatro vagas na Champions League, privilégio que havia perdido para os alemães nos anos anteriores por causa do ranking continental.

Em 1989, pela primeira vez na história do futebol europeu, três times do mesmo país ganharam todos os títulos continentais. O Milan venceu a Copa da Europa (hoje Champions League), a Sampdoria foi campeã da extinta Recopa e a Juventus derrotou a Fiorentina na final da Copa da Uefa (atual Liga Europa).

Mais do que isso, a Série A (como é chamada a primeira divisão do Campeonato Italiano) era o mais glamouroso torneio nacional do futebol mundial, atraía os melhores jogadores do planeta e, consequentemente, telespectadores em todo o mundo. Foi o primeiro campeonato internacional a despertar interesse no público brasileiro.

Em 1984, a Globo, pela primeira e única vez, transmitiu jogos de um torneio do exterior todos os domingos pela manhã. Era a temporada em que a Juventus tinha o francês Platini; o Napoli contratou o argentino Maradona; a Fiorentina tinha Sócrates; a Inter de Milão era de Rummenigge; a Roma, de Falcão.

A campeã foi a pequena Hellas Verona, liderada pelo artilheiro dinamarquês Preben Elkjaer-Larsen, que era conhecido também em seu país como titular da seleção e colunista de uma revista erótica. Nos anos seguintes, o torneio continuou popular no Brasil graças às transmissões no programa Show do Esporte, na TV Bandeirantes.

Em 2018, os jogos só podem ser vistos no Brasil na TV por assinatura. O canal Rai transmite algumas partidas, mas com narração em italiano.

Programas sobre o futebol italiano foram populares, nas décadas de 1980 e 1990 também em outras nações do Velho Continente, como Espanha e Inglaterra.

O torneio ficou mais forte a partir de 1986, quando o empresário Silvio Berlusconi comprou o Milan. Com o limite de três estrangeiros por equipe, ele contratou o trio de holandeses Gullit, Van Basten e Rijkaard. Para responder, a rival Inter de Milão passou a ser o time dos alemães: Brehme, Klinsmann e Matthäus.

Foi na segunda metade dos anos 1980 que o técnico Arrigo Sacchi, do Milan, revolucionou o esquema tático do futebol e fez um dos maiores times da história aparecer.

Após a escolha da Itália para sede da Copa do Mundo de 1990, os estádios do país passaram por investimentos e obras de renovação.

Com o passar do tempo, essas estruturas se tornaram um problema. Sem manutenção e de propriedade do poder público, se ficaram obsoletos, principalmente quando os principais times de outros países iniciaram processo de construção de modernas arenas ou de remodelação de seus locais de jogos.

A Juventus percebeu isso e inaugurou, em 2009, seu próprio e novo estádio ao custo de 155 milhões de euros (R$ 683 milhões em valores atuais).

Milan e Inter de Milão, no entanto, continuam dividindo o San Siro, estádio que pertence à cidade de Milão. Ainda é uma arena moderna, reformada pela última vez em 2008. Foi sede da final da Champions League de 2016, mas não ser dono do campo limita a capacidade de gerar receita.

Em passos curtos, os clubes italianos ensaiam recuperação. A primeira preocupação é diminuir os prejuízos acumulados ano a ano. Em 2017, os times da elite registraram um prejuízo conjunto de 222 milhões de euros (R$ 978 milhões). Na temporada anterior, havia sido de 365 milhões de euros (R$ 1,65 bilhão).

Um dos passos para a melhoria financeira foi a negociação dos direitos de televisão. Em fevereiro, a companhia espanhola Mediapro comprou os direitos de transmissão do Italiano por 3,15 bilhões de euros (R$ 13,9 bilhões), em um contrato de três anos.

O acordo, porém, foi cancelado por falta de garantias. Um novo leilão foi realizado em junho e vencido pela parceria formada entre a Sky Italia e a Perform (empresa dona do serviço de streaming DAZN), que ofereceu 2,92 bilhões de euros (R$ 12,9 bilhões) divididos em três anos de contrato.

O valor é o maior do gênero da história do futebol italiano, ainda que bem menor que o arrecadado, por exemplo, pela Premier League com o Campeonato Inglês. Cinco dos sete contratos colocados à venda para emissoras de TV pela liga inglesa garantiram para os clubes 4,94 bilhões de euros (R$ 21,8 bilhões).

É um começo, assim como os dirigentes da Itália colocam a esperança de que a contratação de Cristiano Ronaldo, em julho, pela Juventus, tenha sido um marco do renascimento do futebol italiano.

Os cerca de 100 milhões de euros (R$ 440 milhões) pagos para tirar do Real Madrid o atacante cinco vezes melhor do mundo representam a maior aquisição internacional de uma equipe italiana desde que a Inter de Milão depositou cerca de 21 milhões de euros (R$ 92,6 milhões) para tirar o brasileiro Ronaldo do Barcelona, em 1998. Na época, foi a maior transferência da história do futebol.

A chegada do português não ajudou no equilíbrio do torneio. A Juventus venceu os últimos sete títulos italianos e lidera o campeonato atual com oito pontos de vantagem para o Napoli após 17 rodadas.

Ele foi contratado para tentar dar à equipe o título europeu que não é vencido por um clube nacional desde que a Inter derrotou o Bayern de Munique na final de 2010.

"A chegada de Ronaldo pode mudar uma tendência de os principais jogadores do planeta rejeitarem a Itália para favorecerem Inglaterra e Espanha. Era o que vinha acontecendo", disse ex-zagueiro da seleção italiana Alessandro Nesta, hoje técnico do Perugia, da segunda divisão.

De uma maneira ou outra, as principais ligas da Europa encontraram sua fórmula. A Espanha, com a distribuição financeira que favorece Real Madrid e Barcelona; a Inglaterra com a criação da Premier League e os acordos de TV que fizeram com que 14 dos 20 times da primeira divisão estejam entre os 30 mais ricos do mundo; a atmosfera mais amigável para os torcedores na Alemanha, o baixo preços de ingressos e a segunda maior taxa de ocupação dos estádios da Europa (91%), atrás apenas do rival inglês (95,4%).

A Itália ainda tenta se livrar da imagem dos torcedores violentos, episódios de racismo e intolerância nas arquibancadas e o escândalo do calciopoli de 2006, que comprovou a manipulação de resultados de partidas do Nacional. A Juventus foi rebaixada. Milan, Lazio, Fiorentina e Reggina perderam pontos.

Em 2012, investigação da polícia sobre apostas em resultados fez com que o ex-atacante da seleção, Giuseppe Signori, fosse preso. Domenico Criscito, convocado para a Eurocopa daquele ano, foi investigado. O então primeiro ministro do país, Mario Monti, chegou a sugerir que a Itália abdicasse da competição.

A regra dos principais torneios europeus é que a lista de times que podem ser campeões é restrita. Os casos da Hellas Verona em 1985 e do Leicester na Inglaterra em 2016 são exceções. 

Mas há o esforço de outras equipes italianas em se aproximarem do poder econômico da Juventus, que por enquanto continua inabalável. Algo que não acontecia nos anos dourados da década de 1980, que não voltam mais.

ALEX SABINO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

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