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Quilombo Mimbó completa 200 anos de conquistas, mas perde jovens para o desemprego

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Em 1819, quando a escravidão ainda era regra no Brasil, dois casais de negros fugiram de Conceição do Canindé, em Pernambuco, em direção ao Piauí, na tentativa de se livrar dos humilhantes e torturantes castigos. Eram Martinho José de Carvalho e Raimunda Maria da Conceição e Augustinho Rabelo da Paixão e Rosário Maria da Conceição.

Onde hoje é a cidade de Amarante, a 170 quilômetros de Teresina, eles encontraram numa caverna o esconderijo perfeito. Mas ainda havia perigo. Muitos caçadores de escravos fugitivos desbravavam as matas diariamente.

Para não serem capturados, os refugiados não iam muito longe, ficavam sempre no entorno da caverna e viviam da caça e da pesca. Lá as famílias cresciam, tiravam o sustento e tinham um pouco de paz, muito diferente da cruel realidade da escravidão que viviam antes.

Foi assim que nasceu o Quilombo Mimbó. Neste ano, a comunidade completa 200 anos de conquistas e histórias para contar, mas por outro lado vive o desafio da falta de emprego, que acaba tirando os jovens da comunidade em busca de oportunidades em outros estados, longe de suas raízes.

"Quem não tem trabalho, vai morar nas grandes cidades. Como não tem fonte de renda na comunidade e no município de Amarante a oportunidade é pouca, você tem que sair para conseguir um meio de vida. Geralmente, os jovens saem, passam uma temporada, e depois voltam para a comunidade. Quando eles têm família, levam a família junto", conta Ramon Paixão, que nasceu e foi criado no Mimbó, mas por falta de oportunidade local, já morou em Minas Gerais e em Goiás, e atualmente mora em Teresina. Ele é educador digital e tem 26 anos.

Segundo ele, os trabalhos que aparecem na comunidade para os jovens que ficam são muito simples, geralmente diárias para capinar um quintal, fazer faxina ou roçar, pagas pelos aposentados da cidade.

"Temos muita dificuldade com emprego. Se não faltasse emprego, as pessoas não estariam saindo para outros estados. No Quilombo, a profissão que predomina é a agricultura, não tem opção além disso. Mas quando as pessoas saem, elas voltam com outras ocupações, como ferreiros ou armadores. Teve uma época que praticamente só as mulheres ficaram na comunidade porque os homens foram trabalhar em Rondônia, numa ferraria. Os que foram primeiro, chamaram os outros", lembra Ramon.

Foto enviada por moradores do Mimbó

Muitas pedras no meio do caminho

O professor Rodrigo Mimbó, que mora no quilombo, conta que na década de 1980 a comunidade passou a ter acesso à educação e à saúde. Foi instalada uma Unidade Básica de Saúde.

Mas, somente em 2006 a comunidade foi reconhecida e registrada oficialmente como quilombola, pela Fundação Cultural Palmares - AL. Para os moradores, essa foi uma grande e importante conquista, porque existem leis que garantem direitos às comunidades quilombolas, como maior atenção quanto à assistência social, saúde, educação e cultura.

"Mesmo sendo rejeitados, as coisas melhoraram. Passamos a ter uma escola melhor, com professores melhores. Temos acesso a internet, temos uma estação digital. Temos calçamentos", lista o professor Rodrigo.  

Ramon concorda com as melhorias. "Agora temos um posto de saúde com atendimento médico e dentista duas vezes por semana. A educação, depois que as pessoas da própria comunidade assumiram a direção, a escola melhorou muito, o desenvolvimento das crianças melhorou", acrescenta.

Os avanços, porém, não escondem as dificuldades. "A escola não tem estrutura, apesar de todo o empenho das pessoas que trabalham lá. Falta muita coisa, itens básicos para que a escola consiga ensinar bem. Não temos quadra de esportes nem centro cultural", lamenta Ramon.

A única escola da comunidade aceita crianças apenas até a 4ª série do Ensino Fundamental. Depois disso, as crianças passam a estudar em Amarante. Um ônibus da prefeitura vai buscá-las e deixá-las todos os dias. Para Ramon, a comunidade não é "nem 50%" assistida pelo poder público.

Gente de fibra

Ramon afirma que apesar de todos os percalços, há muito o que comemorar.

"Todo mundo aqui se gosta muito e se protege, se ajuda. Essa é a nossa cultura. A comunidade é muito receptiva e temos a nossa história, o respeito que as pessoas têm com a gente, a felicidade no rosto. Mesmo passando necessidades, a gente consegue ser feliz, porque o que temos de melhor é a nossa cultura, garra e determinação".

Para comemorar tudo isso, será realizada a Semana Cultural Quilombo Mimbó, de 20 a 24 de novembro. O evento terá o desfile da Miss Beleza Negra 2019. Durante a programação será realizado a Feira Preta, com produtos artesanais feitos na comunidade. Os teresinenses que querem participar têm como opção irem ao Quilombo em uma excursão, organizada pelos moradores da comunidade. O ônibus sai de Teresina dia 23 às 18h e retorna no dia seguinte, no mesmo horário.

Veja a programação completa:

20/11 às 17hrs - Missa Africana (Capela de Nossa Senhora Saúde);

23/11 às 08hrs - Chama Pública FestCafro 2019 (Mercado Municipal de Amarante-PI;

 24/11 - XVI FESTIVAL DA CULTURA AFRO 2019

08Hs- Grupo Evangélico Igreja Madureira do quilombo Mimbó;

08H20 - Roda de Griot (filhos dos fundadores do Mimbó contado fatos e lembranças marcantes da época de isolamento do quilombo);

09Hs - Grupo de Cultura Afro Ijexá (Grupo de Teresina);

09H20 - Desfile de escolha da Musa do Mimbó 2019 (Meninas do Mimbó de até 13 anos);

9H40 - Pagode do Mimbó;

9H50 - Umbanda do Mimbó (Terreiro de São Jorge Guerreiro);

10H - Grupo Magia Capoeira de Amarante-PI;

10H30 - Desfile Miss e Mister Beleza Negra 2019

11H - Desfile da Miss Beleza Negra 2019 usando traje criado pela produtora de moda afro Semia Santos (Ateliê 4f's Moda Afro).

 

Jordana Cury
[email protected]

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