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Vírus agrava crise política em Hong Kong, que limita entradas via China

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Fonte: Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, NIH, EUA

Em convulsão política desde junho do ano passado, o território chinês de Hong Kong adicionou um novo elemento à sua crise: o coronavírus de Wuhan.

As medidas do governo local, que tem autonomia relativa em relação à ditadura comunista de Pequim, são vistas como insuficientes pela oposição -que já colocou a emergência de saúde pública no cardápio de seus protestos.

Nesta terça (28), a executiva-chefe da região, Carrie Lam, anunciou a restrição do trânsito de passageiros vindos da China em direção a Hong Kong, que é composta por uma parte continental, uma ilha principal e diversas outras menores.
O território tem até agora oito casos confirmados da doença, sem nenhuma morte registrada entre seus 7,4 milhões de habitantes.

Serviços de trem entre o território e Guangzhou serão suspensos, e dois pontos de fronteira, fechados. Voos serão reduzidos e, a partir de quinta (30), Pequim não emitirá mais vistos individuais para entrada temporária de chineses.
Esse grupo responde por metade dos 1,92 milhão de visitantes da China em Hong Kong em novembro, o último dado disponível.

Esse contingente chinês responde por 73% do total de entradas na região autônoma no mês, que havia registrado uma queda global de 56% no número de turistas em comparação a novembro de 2018, devido à crise política. O setor de turismo é um dos mais afetados pela crise contínua. Até aqui, Hong Kong só havia proibido a entrada de moradores da província de Hubei, o epicentro do surto do coronavírus.

"Essa administração é um desastre, precisamos de proteção total, temos uma densidade populacional enorme", afirma Chu Wong, ativista pró-democracia do distrito de Kowloon. Há no território 6.800 habitantes por km² -a cidade de São Paulo tem 7.900 moradores/km².

Mesmo integrantes que apoiam o governo no Conselho Legislativo, o Parlamento local, manifestaram preocupação com a demora na adoção de bloqueios totais.

Usando uma máscara, assim como outras autoridades presentes na entrevista em que anunciou as restrições, Lam também politizou sua fala. Afirmou que é preciso "unidade" para lidar com a crise e pediu para que opositores evitem espalhar rumores.
Além das restrições, foi determinada a checagem de temperatura de todas as pessoas que entrarem, por qualquer meio de transporte, em Hong Kong.

Em novembro, quando a reportagem visitou a região, já havia uma checagem algo aleatória de temperatura à distância no aeroporto internacional da ilha de Chek Lap Kok.
A executiva-chefe já teve de recuar de uma medida para a crise, que foi a tentativa de usar dois grandes prédios de um conjunto habitacional desocupado do governo como centros de quarentena, na região de Fanling.

No fim de semana, moradores da região bloquearam o acesso ao local e tentaram incendiá-lo, entrando em confronto com a polícia. Agora, o governo estuda usar resorts de praia para o caso de ser necessário isolar doentes.
Enquanto isso, a rotina de Hong Kong, já duramente afetada pelos protestos quase diários, sofre com medidas restritivas.

Segundo a reportagem ouviu de moradores, já começa a haver falta de alguns produtos em mercados locais. Já é bastante difícil encontrar máscaras de proteção e álcool em gel, usado para desinfecção das mãos.
Todos os servidores públicos e boa parte da população tem atendido à recomendação de ficar em casa o máximo possível, e quem pode usa máscara ao andar na rua.

Este é um hábito de resto já bastante comum em vários países orientais, por causa da poluição e o temor de doenças respiratórias -2 das 3 grandes pandemias de gripe do século 20 surgiram na região, em 1957 no leste asiático, e em 1968, em Hong Kong.


A volta às aulas foi adiada do dia 3 para o dia 17 de fevereiro, todos os eventos culturais e esportivos foram suspensos, e até as praias da região estão com acesso proibido.
A filial local da Disneylândia foi fechada, e mesmo campinhos de futebol e quadras de basquete estão sem operar.

Neste fim de semana, deverá haver novo protesto contra o governo de Lam.

As manifestações começaram esporadicamente em março, mas tomaram corpo em junho, quando milhões foram às ruas contra um projeto de lei que facilitava a extradição de cidadãos de Hong Kong para o continente.

Desde que foi devolvido pelo Reino Unido à China em 1997, o território vive sob um regime especial, chamado "um país, dois sistemas", no qual mantém o capitalismo desregulado, liberdades democráticas, Judiciário independente e imprensa livre -ao contrário da ditadura que o controla.

A lei acabou arquivada, mas os protestos evoluíram e incorporaram demandas por mais democracia, como a introdução do sufrágio universal para a escolha do Executivo, hoje eleito por um conselho de 1.200 membros influenciado por Pequim.

Em novembro, a oposição obteve uma vitória esmagadora em eleições locais, e em setembro deste ano haverá pleito para o Conselho Legislativo, que tem 35 de seus 70 membros eleitos diretamente, enquanto os outros são indicados por entidades de classe.

Fonte: Igor Gielow /Folhapres

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