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Grandes clubes de SP perdem R$ 200 milhões com ausência de torcedores

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Após reuniões virtuais acaloradas entre dirigentes, federações estaduais e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), o Campeonato Brasileiro da Série A chega ao final do primeiro turno sem perspectivas concretas de ter torcida de volta às arquibancadas e com estimativa de perdas de centenas de milhões de reais.

Os quatro grandes clubes paulistas (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo), somados, preveem R$ 197 milhões de perdas.

A restrição ao público, medida necessária para mitigar a transmissão do coronavírus, interrompeu lucros com a comercialização de ingressos e toda a cadeia comercial do evento, incluindo serviço de estacionamento, venda de produtos do time e consumo de alimentos e bebidas.

Outro impacto significativo é no programa de sócio-torcedor, uma possibilidade de negócio ainda em processo de amadurecimento entre as equipes brasileiras.

Nessa modalidade, o torcedor paga ao clube um quantia mensal e consegue, com variações entre os modelos adotados, adquirir ingresso com exclusividade ou descontos, além de outros benefícios.

Segundo estimativa da empresa de auditoria EY, os times da elite nacional deverão deixar de embolsar R$ 605 milhões ao longo desta temporada com seus estádios de portões fechados.

As 20 equipes mais bem colocadas no ranking da CBF arrecadaram, juntas, R$ 952 milhões em 2019 com o matchday -nome atribuído no mercado ao somatório de receitas de bilheteria, sócio-torcedor, comercialização de camarotes e venda de produtos dos clubes, alimentos e bebidas.

Se confirmada a projeção, esses itens somarão neste ano cerca de R$ 347 milhões.

A reportagem questionou os times da Série A sobre a estimativa de prejuízos com a falta de público.

Entre os que responderam, Palmeiras e Corinthians projetam perdas, respectivamente, de R$ 86 milhões e R$ 82 milhões. São Paulo e Santos adotam projeções mais baixas que as dos rivais, de R$ 18 milhões e R$ 11 milhões.

"O Corinthians entende que a volta [do público] só deverá ocorrer ao mesmo tempo para todos os times e com aval médico. Mas é inegável como esse dinheiro vai fazer falta", disse o presidente corintiano, Andrés Sanchez, à Folha. Ele deixa o cargo neste mês, quando será eleito novo mandatário para o clube.

Fora de São Paulo, as projeções de prejuízo são variadas entre Bahia (R$ 50 milhões), Ceará (R$ 20 milhões), Fortaleza (R$ 10 milhões), Atlético-GO e Goiás (aproximadamente R$ 15 milhões cada um).

O Flamengo foi a agremiação que mais ganhou com o matchday na temporada 2019, ao faturar R$ 175 milhões.

Em seu último balancete, atualizado até o dia 30 de setembro deste ano, a equipe carioca contabilizou ter recebido R$ 21 milhões com a venda de ingressos em 2020 ante os R$ 61 milhões arrecadados no mesmo período em 2019.

Do total de R$ 21 milhões, R$ 11 milhões são referentes ao Estadual do Rio de Janeiro. Os demais têm origem na Copa Libertadores e na Recopa Sul-Americana, em partidas realizadas até março, antes da paralisação do futebol pela pandemia e de sua volta sem torcida nos estádios.

Só no Campeonato Brasileiro, até o dia 30 de setembro de 2019, o time campeão acumulou uma renda bruta de R$ 29 milhões.

Embora na elite o matchday seja a terceira maior fonte de renda dos times, geralmente atrás da venda dos direitos de transmissão e da negociação de atletas, sua perda é praticamente irrecuperável.

"Há uma previsão de perda de até 75% sem o público no estádio, um impacto expressivo. O sócio-torcedor está muito atrelado à facilidade para conseguir um ingresso", afirma Fernando Trevizan, da Escola de Negócios Trevizan.

No bolo da composição de arrecadações dos times, o matchday responde por uma fatia de 16% desde 2017.

As cotas de televisão representaram até 40%, e transferências de jogadores variaram de 19% a 27%. De 2018 a 2019, com incremento de 24%, o matchday passou de R$ 796 milhões para os atuais R$ 952 milhões, conforme levantamento da EY. Para este ano, a previsão pré-pandemia era ultrapassar R$ 1 bilhão.

"Embora a taxa de ocupação dos estádios ainda esteja longe das principais ligas europeias, a média de público no Brasil vem crescendo consistentemente ao longo dos últimos 15 anos", afirmou André Monnerat, diretor de negócios da Feng, empresa especializada em programas de sócios e engajamento de torcedores.

De volta à primeira divisão neste ano, o Atlético-GO arrecadou R$ 2 milhões com matchday quando estava na B. "A Série A nos daria um retorno muito maior. Em um jogo contra o Flamengo, em Goiânia, a gente arrecadaria R$ 3 milhões", diz Adson Batista, presidente do clube.

A falta de arrecadação com a torcida no estádio é um problema sentido em vários países, principalmente por times de divisões inferiores, que não contam com contratos de televisão vantajosos. Mas mesmo os clubes mais ricos do mundo vêm amargando perdas significativas.

O Manchester United, da Inglaterra, registrou prejuízo de 23,2 milhões de libras (R$ 173 milhões) na última temporada do futebol, e o espanhol Barcelona, de 100 milhões de euros (R$ 670 milhões).

"Nossa principal prioridade é levar os torcedores de volta ao estádio com segurança e o mais rápido possível", afirmou o vice-presidente executivo do clube inglês, Ed Woodward.

Mas o aumento recente do rigor nas medidas de combate à pandemia na Europa tem apontado para outra direção. O primeiro ministro britânico, Boris Johnson, anunciou neste sábado (31) a volta do país ao lockdown, com fechamento de todos os serviços não essenciais.

Representantes de clubes brasileiros e a CBF se reuniram por videoconferência, no último dia 16, e mantiveram a proibição à presença de torcida no Nacional. No fim de setembro, posição isolada do Flamengo a favor do retorno provocou divergências e bate-boca entre os cartolas.

A CBF afirma que o retorno gradual do público só deverá ocorrer de forma isonômica, com aval das autoridades de saúde locais e de acordo com medidas protetivas previstas no estudo encaminhado ao Ministério da Saúde.

Esse estudo prevê no máximo 30% da capacidade dos estádios liberada aos torcedores e apenas para o time mandante, enquanto os visitantes seguirão sem acesso.
"A volta é incerta e, quando ocorrer, não atingirá 100% da capacidade e não vai suprir essa necessidade dos clubes, que já não devem considerar essa receita tão cedo", diz Trevizan.

CARLOS PETROCILO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

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