Cidadeverde.com
Geral

Cuidar do outro e ter mais empatia pela vida humana: os legados da Covid-19

Imprimir

Foto: Roberta Aline/TV Cidade Verde

Que legado a pandemia da Covid-19 deixará para você em 2020? Para uns, o sentimento de renovação e agradecimento por sobreviver ao novo coronavírus; para outros, a dor da saudade de perder os entes queridos. Há também os que aprenderam a lidar com as angústias do isolamento social e os que precisaram se reinventar no trabalho. Afinal, o que levar para 2021?

A psicóloga e professora da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), Gina Quirino, lembra do “novo normal” tão falado e vivido neste ano. Ela conta que o ano de 2020 nos fez enxergar a realidade dos nossos hábitos ruins, valores, crenças, as nossas negligências, sobretudo com as pessoas. 

“Penso que o legado que o isolamento social de 2020 nos trouxe foi o de valorizamos mais nossa comida, nossa saúde física, mental e espiritual, valorizamos mais o trabalho e as pessoas”. Para Quirino, “vivemos em 2020 momentos de muitas mudanças, perdas e desafios, mas foi um ano também de muitos aprendizados”. 
 


José Ivaldo com Aranucha Britto e os filhos Rafaela e Matheus (Foto: Aranucha Brito/Arquivo Pessoal)

Médico, ginecologista e obstetra, José Ivaldo de Oliveira, 48 anos, atuou bravamente durante a pandemia, salvou muitas vidas e trouxe outras tantas ao mundo. Infelizmente ele não resistiu às complicações da Covid-19.

José Ivaldo também era diretor clínico do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Casado há 13 anos com a enfermeira Aranucha Brito, juntos tiveram dois filhos: Rafaela e Matheus. “Vivemos intensamente e fomos muito felizes durante todo o nosso tempo juntos. Uma das lições que aprendi com a dor e com provação pela qual estou passando é a de que o tempo de Deus é diferente do nosso”, diz Aranucha. 

“As inúmeras homenagens comprovam o que Ivaldo sempre foi, um médico dedicado e ético, aquela pessoa leve e de bom coração, um bom filho, bom amigo, pai carinhoso e dedicado e um excelente marido; querido e muito amado por todos que tiveram o prazer de conviver com ele”, comenta.
 

“Lidar com a morte de quem amamos não é fácil, ainda mais, uma morte repentina e inesperada. Cuidemos mais uns dos outros com respeito e empatia pela vida humana. Dessa forma você estará contribuindo para que outras famílias não passem pela mesma dor que eu e os meus filhos estamos passando! A pandemia ainda não acabou!”


Aranucha Brito, enfermeira 

Precisamos aprender algo com o ano de 2020. Deveríamos valorizar mais o que é mais importante no mundo: as pessoas. Cada ser humano no mundo tem sua importância para alguém. Sejamos mais cuidadosos uns com os outros e não pensemos apenas nos interesses individuais. Só assim poderemos mudar de fato o mundo e termos então um “novo normal” melhor.

Gina  Quirino, psicóloga

Mudança repentina 

A psicóloga Nadja Pinheiro, também professora da Uespi, reflete que o “período de pandemia gerou um processo de ruptura brusca no cotidiano e planejamento cercado por intenso estresse. De forma repentina, situações de medo e hostilidade passaram a ameaçar uma rotina já conhecida, exigindo novas posturas e comportamentos”. Nadja Pinheiro participa do Grupo de Prevenção ao Suicídio da Secretaria Estadual de Saúde (Sesapi).

Nadja Pinheiro explica que o isolamento social trouxe às pessoas a quebra das atividades laborais, o desemprego, as dificuldades financeiras, a reorganização familiar, o isolamento dos parentes e amigos. Essa realidade potencializa problemas psicológicos já presentes ou fornece o contexto no qual eles podem se desenvolver.

 A mudança repentina estava acompanhada de informações sobre a letalidade do novo coronavírus, o número crescente de óbitos, a falta de conhecimento sobre o mecanismo da doença e o isolamento social, que provocaram situações de adoecimento físico e psíquico.  “A depressão e diversos fatores a ela associados se potencializaram com o isolamento social e as dificuldades de interação. Tanto pela questão de manter-se em segurança, como pela perspectiva da segurança do outro”.

O Brasil ultrapassa o total de 189.264 mil mortes. Em casos confirmados, desde o começo da pandemia no país, mais de 7.366.677 brasileiros já tiveram ou têm o novo coronavírus. O Piauí já chega a 140.425 casos confirmados e 2.802 mortes. 

O Milagre da Vida

O cantor Álvaro Pajeú venceu a Covid-19 na sua fase mais crítica. O novo coronavírus comprometeu até 90% dos pulmões do cantor. Álvaro passou 17 dias internados; desses sete dias na unidade de tratamento intensivo. Ele chegou a ficar sete dias entubado e passou por reabilitação pós-covid. 

“A Covid-19 é agressiva. É rápida. No meu caso, foi muito rápido. Graças a Deus e à equipe médica, hoje eu sou um milagre e estou aqui hoje para falar dessa experiência. Espero que o ano de 2021 seja um ano maravilhoso, com muita paz e saúde, que Deus nos abençoe”. 


 

O jornalista Álvaro Carneiro conta que o ano de 2020 ficou marcado pela pandemia de um inimigo microscópico e invisível chamado “coronavírus”, que mexeu com as nossas vidas, encheu o mundo de medo, pânico e terror. Ele também venceu a Covid-19 na sua forma mais cruel, chegando a passar 20 dias internados com sintomas graves da doença. 

“O pior de tudo (nessa pandemia) é que nós perdemos vidas, muitas vidas. Eu mesmo estive bem perto da morte e passei os meses de setembro e outubro numa via crucis hospitalar, entubado e em coma, lutando. Eu venci, com muitas sequelas, mas também com muitas lições de vida. Aprendi que quando a gente quer ser solidário, a gente é; e que quando estamos com dificuldades, a gente consegue formar uma comunidade mais coesa”.
 

 

 



Álvaro Carneiro fala sobre a corrente de oração que surgiu por sua recuperação e comenta que a fé das pessoas é importante, pois ela se consolida nos momentos mais aflitivos da história da humanidade.

“Nós nos aproximamos mais de Deus, nós recorremos mais à fé, nós pedimos mais a Deus pela nossa saúde e pela saúde das outras pessoas. É importante que a gente leve essas emanações positivas para 2021. Vamos ter mais fé”.

Apesar da proximidade da vacinação contra o vírus no Brasil, Álvaro Carneiro, que passou por momentos difíceis em decorrência da infecção, diz que ainda “não é hora de nos desarmarmos contra o vírus” e pede que as pessoas respeitem mais as medidas de preveção.  

2020 está se passando. Nós já estamos avistando 2021, com perspectivas positivas. As vacinas estão chegando, isso vai nos imunizar. Vamos voltar a nos abraçar, voltar a se frequentar, voltar a se socializar, nós somos seres sociais.  Mas é importante que a gente mantenha as regras de isolamento (social) porque o vírus ainda está aqui. É importante que a gente mantenha as vidas que estão conosco agora. 

2021 está aí, levemos essa grade lição para as gerações futuras: a da solidariedade; a da responsabilidade com o próximo, com a vida alheia. Vamos ser mais coesos, mais unidos e conscientes da nossa responsabilidade como ser humano.

Álvaro Carneiro, jornalista 

 

 



Carlienne Carpaso
[email protected] 

Imprimir