Cidadeverde.com
Geral

Líderes religiosos do Piauí relatam como a fé foi impactada pela pandemia

Imprimir

Fotos: Roberta Aline/Cidadeverde.com

Os quase dois anos de pandemia do novo coronavírus (Covid-19) no Brasil tem impactado profundamente a vida de milhares de pessoas, alterando rotinas e comportamentos nos mais diversos aspectos, como a religiosidade. Ao Cidadeverde.com, líderes de alguns templos espirituais de Teresina analisaram como a doença se relacionou com a prática da fé, quais as lições da crise sanitária e perspectivas para o ano de 2022.

Apesar do vírus e as medidas de isolamento social para combatê-lo terem sido um problema para o que considera um dos principais preceitos do cristianismo, a vida em comunidade, o padre Adão Cruz, da Paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus, localizada no bairro Dirceu II, na zona Sudeste da capital, avalia que as famílias tiveram a oportunidade de se reconectar consigo mesmas e com a religiosidade em suas residências.

“O que mais sentimos foi a quebra dessa vida em comunidade [...] uma das situação que mais afetou a igreja como um todo, porque não existe cristianismo sem comunidade. Penso que o fato de passar o tempo em casa e se afastar da igreja foi muito doloroso, mas ao mesmo tempo, foi o despertar da igreja doméstica. Ao ficar em casa, pais e filhos puderam viver em casa aquilo que se vivia na igreja”, disse o pároco.

“A igreja teve que repensar todo seu trabalho pastoral. Nunca se pensou que usaríamos tanto as redes sociais para atingir o coração das pessoas. Se por um lado houve a fragilidade desse viés comunitário, houve também o resgate dessa igreja doméstica e usufruo das redes sociais e da tecnologia, tão necessário para evangelização”

A procura por uma reconexão com fé e espiritualidade também foi observada pelo pai de santo Eudes de Oxum Apará, da tenda umbanda Santa Luzia do bairro São Pedro, na zona Sul. Ele relata, no entanto, que este movimento foi mais forte e perceptível no primeiro ano de pandemia, mesmo com todas as restrições quanto à realização de celebrações presenciais e necessidade dos atendimentos virtuais.

O dirigente da casa explica que, de acordo com a crença da religião de matriz africana, 2020 foi regido pela influência energética de Oxalá, que não apenas teria reaproximado os indivíduos do sagrado, mas também proporcionado a busca por terapias e a viver mais próximo dos seus familiares. O cenário, continua Eudes de Oxum, é um pouco diferente em 2021 devido a sensação de que a pandemia já está mais controlada.

“Ano passado achei que foi mais espiritual, não sei se por conta de ter sido o auge da pandemia e todo mundo ter ficado com medo, mas as pessoas se ligaram mais nessa questão da espiritualidade. Esse ano já temos outra conjuntura, as pessoas que haviam se ligado se desligaram um pouco mais, até porque ficaram todos esperançosos por conta da vacina. Sentimos uma certa evasão em relação ao ano passado”, pontua o sacerdote.

Já o pastor Antônio Edison, da Segunda Igreja Batista do bairro Lourival Parente, na zona Sul de Teresina, tem uma visão diferente das citadas anteriormente. Ele explica que os percalços atuais são previsíveis e explicados em passagens da Bíblia Sagrada que, ao invés de provocar o revigoramento da população como um todo em seus dogmas religiosos, fez foi distanciá-la ainda mais dessa reconexão religiosa esperada pelas escrituras.

“Não tenho como verificar e olhar essa situação sem uma visão do contexto bíblico. Não tenho dúvida de que esse momento é parte desse projeto de Deus, pois ele é soberano sobre todas as coisas [...] Se isso veio a melhorar e fortalecer a fé do povo? Pelo contrário, o povo esfriou. Embora Jesus não afirme que isso fosse acontecer por conta de epidemias e pandemias, dentro do contexto o povo terminou foi esfriando, não se firmou na fé como era de se esperar”, argumentou o líder evangélico.

Cristina Miranda, presidente da Federação Espírita Piauiense (Fepi) pontua por outro lado que, mesmo este sendo um momento de profundas incertezas, dúvidas e inquietações constantes sobre o que está por vir, avalia que podemos aprender e tirar muitos aprendizados positivos das dificuldades causadas pela Covid-19.

“A lição que fica é que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, ter empatia com a vida, com as dores e com os sentimentos dos outros. Para vivermos em harmonia e em paz, evitaremos as guerras interpessoais, como vemos cotidianamente nas redes sociais através de mensagens e vídeos. Estamos vivendo em um mundo muito carente e necessitado de amor, por isso entendemos e desejamos que a humanidade possa tirar essa lição”, defende a guia espiritual.

Mensagens de ano novo
Os líderes religiosos ouvidos pela reportagem também fizeram projeções para o ano novo que se aproxima e mensagens positivas para 2022. Para o pastor Edison, por exemplo, o pior da pandemia já foi ultrapassado e os próximos tempos serão diferentes e melhores dos vividos nos últimos meses da crise sanitária.

“Creio que o livramento já ocorreu e que teremos um ano novo diferente, onde todos estamos prontos para voltarmos às nossas atividades normais, aos nossos projetos e nossos sonhos. Voltarmos principalmente à casa de Deus, para louvar e agradecer por tamanho livramento que ele fez, mesmo nós não sendo merecedores”, declarou o ministro religioso.

Já na umbanda, por exemplo, a orientação é para que as pessoas, independente do credo, estejam abertas ao próximo e também atentas a si mesmas. “Como vai ser um ano de Oxumaré, será de muita transformação. Todo mundo deve virar o ano com aquela vontade de transmudar, transluzir as energias negativas que temos vivido”, direcionou Pai Eudes.

A recomendação umbandista é semelhante ao pregado pelo espiritismo, que também atenta para a preocupação com o outro e com o ambiente em que vivemos. “Que possamos olhar mais nos olhos uns dos outros, tocar e abraçar, emanando boas energias, possamos ver o próximo e nossos irmãos mais necessitados carentes de afeto e pão, material e espiritual, com mais amor. Estarmos juntos na fé e na oração, mandando energias positivas para nosso planeta terra para alçarmos juntos a paz e o amor que tanto almejamos nas nossas vidas”, citou Cristina Miranda.

Além de recomendar que as pessoas também festejam as festas de fim de ano consigo mesmas, olhando cada vez mais para dentro delas, padre Adão faz questão de deixar uma mensagem para aquelas famílias que, infelizmente, perderam um dos seus membros para a pandemia.

“O luto precisa ser vivido para ser superado, e Jesus, que ressuscitou, deu-nos uma mensagem de como superar a morte: não preocupe o vosso coração. Se precisar de ajuda e terapia para vivenciar o luto, procure, mas acima de tudo olhando para a palavra que nos alivia, que é a palavra do Senhor”, concluiu o clérigo.

Breno Moreno
[email protected]

Imprimir