Cidadeverde.com
Esporte

Último colocado do ranking da CBF rifa bicicleta e sonha com SAF

Imprimir

Alheio à final da Supercopa do Brasil, entre Flamengo e Atlético-MG, no mês passado, Antonio Tadeu de Oliveira, 57, foi à loja Naldo Bikes, em Porto Velho, Rondônia.

Enquanto o líder do ranking da CBF de 2022 e o terceiro colocado disputavam o primeiro troféu do futebol nacional na temporada, o presidente do Rondoniense recebia a doação de uma bicicleta pintada de vermelho e azul.

"Vou fazer uma rifa com ela. Se conseguir juntar R$ 5 mil, já vai ajudar bastante. Fazer futebol sem dinheiro é uma correria", afirma.

No ranking nacional de clubes de 2022, o Flamengo é o primeiro colocado, com 17.054 pontos. O Rondoniense é o 236º e último, com 15.

A diferença entre os dois é bem maior do que as 235 posições da lista que leva em conta resultados recentes.

O maior salário do Flamengo é de Gabigol, cerca de R$ 1,6 milhão por mês. Para contratar o meia Fernandinho, Tadeu fez um acordo. Ele chama de "pacotinho". Pelos três meses do estadual de Rondônia, paga R$ 5 mil. Se for campeão, mais R$ 8 mil.

A maior parte do elenco é composta por garotos das categorias de base, que recebem R$ 100 de ajuda de custo, vale-transporte e uma cesta básica. Quando há treinos duas vezes por dia, o Rondoniense oferece almoço. Algo possível porque um supermercado da cidade doa as verduras.

Neste ano, o Flamengo prevê faturamento de R$ 1 bilhão.

"Vou explicar para você como mantenho o time. Durante o ano, junto dinheiro. Consigo uns R$ 30 mil ou R$ 40 mil. Mas não dá. Se for olhar tudo, viagem, alimentação, salários, gasto R$ 100 mil. Não tenho essa quantia. 

Então, passo os 12 meses de cada ano economizando para financiar o campeonato seguinte ou pagando as dívidas do estadual passado", diz o presidente.

Se para os principais clubes do país o topo da montanha é ser campeão da Libertadores e ir para o Mundial, o sonho de Tadeu e do Rondoniense é muito, mas muito mais modesto. Ganhar o campeonato estadual. E não é nem exatamente pelo título. É pela vaga na Copa do Brasil do ano seguinte. Significa a redenção financeira.

Apenas para jogar a primeira fase, são R$ 625 mil. Superada essa etapa, a partida seguinte vale R$ 1 milhão.

"Aí eu tiro a barriga da miséria", constata Tadeu.

É a sobrevivência não apenas dele mas dos seus jogadores. Dos jovens que sonham, apesar dos prognósticos, em ter o futebol como a sua mina de ouro. Para os mais veteranos também. Aqueles que planejam apenas como sobreviver mais um ano.

Fernandinho, 27, atua por três meses em Rondônia, geralmente no Rondoniense, e depois sai a campo. É preciso ganhar algum dinheiro nos outros meses.

Pode ser um clube da Série D do Brasileiro. Pode ser a várzea de Porto Velho, onde atua mediante o pagamento de um bicho. Pode ser no Fut7, onde foi campeão brasileiro do ano passado.

"O estadual abre mercado. Meu pensamento é fazer um bom campeonato, buscar o título. Se trabalha bem, aparece gente interessada. Há muitas pessoas assistindo os jogos, e pode ser que eu vá para algum lugar. Também tenho alguns contatos fora do país", explica.

Para aparecer, vale se adaptar. Revelado como atacante, passou para a meia e hoje joga como segundo volante.

É mais ou menos o pensamento do Rondoniense como um clube. Fundado como projeto social em 2007, apenas com equipes das categorias de base, tornou-se profissional pela vontade de Tadeu.

Analista de sistemas da Eletrobras, consegue se dedicar também ao clube graças à estabilidade de servidor público.

Dirigentes do Juventude entraram em contato com ele na semana passada. O time gaúcho enfrentaria o Porto Velho, pela Copa do Brasil. O Rondoniense é uma das poucas agremiações do estado que têm um centro de treinamento.

"A gente cede, não tem problema. Eles nos dão uma camisa oficial, alguns ingressos para o jogo, e emprestamos o campo", informa o presidente.

Todas as "doações" serão rifadas ou vendidas para ajudar a financiar a temporada. O sonho é conseguir ter um orçamento de R$ 300 mil por ano ou R$ 25 mil por mês.

"Se você pega o salário do Hulk [cerca de R$ 2 milhões], eu mantenho o time funcionando e participando de todos os torneios, da base e profissional, por uns sete anos", informa.

Se o líder do ranking da CBF não pensa em se tornar SAF, antes de tudo porque não precisa, o último colocado está de portas abertas. Tadeu jura "estudar muito a legislação" para conseguir investidor para o seu clube. Por mais difícil que seja obter isso para um time que joga a primeira divisão de Rondônia.

Mas, enquanto ter esperança não paga imposto, ele sonha.

"Vocês acham que a realidade do futebol é o Flamengo. Não é, não. A realidade do futebol é a do Rondoniense. É passar o ano todo com o pires na mão. Estou tentando vender placa de publicidade no CT. Peço R$ 1.200 ou então que o patrocinador compre dez camisas para nos ajudar porque..."

No meio da frase, o piauiense Antonio Tadeu de Oliveira para de falar e percebe a chance.

"Rapaz... Coloca aqui que estamos pensando em virar SAF e queremos investidor aqui no futebol de Rondônia. Quem sabe não aparece esse cabra?"

Fonte: Folhapress

Imprimir