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Solidão, medo, insegurança e os desafios da maternidade na pandemia de Covid-19

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Fotos: Montagem/Arquivos Pessoais

A pandemia de Covid-19 transformou o mundo, comportamentos e principalmente as relações pessoais. O medo do desconhecido e a insegurança impactou momentos únicos e desafiadores como a maternidade. O Cidaverde.com conta a história de três mães que tiveram filhos durante a pandemia de Covid-19 e relata os seus desafios durante esse período.

Jordana e Tarsila

“O que mais pesou para mim foi a parte da socialização”, diz a jornalista, pesquisadora e professora, Jordana Fonseca. Mãe da Tarsila, que hoje tem oito meses, Jordana desabafa que sentiu falta de ter seus familiares e amigos próximos a ela durante a pandemia.

“O que mais pesou para mim foi a parte da socialização. Meus amigos e familiares moram em outra cidade, aqui em Balsas, somos só nos três (eu, meu marido e a Tarsila). Então, eu não tive muitos encontros durante a minha gestação. Minha mãe só me viu uma vez pessoalmente com a barriga. Depois já foi no nascimento da Tarsila. Senti falta de ter as pessoas queridas mais perto”, conta.

Apesar do desafio da gravidez, a professora explica que fazer o que estava no seu controle foi um dos fatores essenciais que a ajudou a não ter medo do futuro.

Foto: Arquivo Pessoal

“A gravidez não estava nos planos. Eu apresentei minha dissertação de mestrado em agosto de 2020, em meio a isolamento, tanto que foi em formato remoto. Os planos eram seguir para o doutorado, mas em janeiro de 2021 veio o positivo. Desde o início a minha maior preocupação era cuidado do que estava no meu controle, ou seja, manter os cuidados necessários com relação a pandemia e no caso as demandas da gestação: pré-natal e enxoval. Isso me ajudou a não ter tanto medo do futuro”, diz.

Depois de alguns meses de aprendizado, desafios e adaptação com a nova rotina, Jordana Fonseca diz que cuidar das nossas vidas foi a maior lição que ela aprendeu durante esse momento.

“A maior lição que tirei desse momento é que o mais importante mesmo é cuidar das nossas vidas. Falo no sentido que vida vem antes de qualquer coisa, que certas questões podem esperar. Para a gente valorizar mais os momentos com as pessoas que amamos. Criar um bebezinho em meio a tudo isso nos faz focar no agora”, destaca Jordana.

Teresa e Abel

“O maior desafio era não receber ninguém em casa”, conta a jornalista e mãe do Abel de 1 ano, Teresa Albuquerque. Para Teresa, cuidar da rotina sem a ajuda da sua família e amigos também foi um dos grandes desafios na sua maternidade.   

“O maior desafio era não receber ninguém em casa, não poder sair, ficar sozinha eu, bebe e marido, tendo que cuidar de tudo, com pouca ajuda. E as vezes o tempo se arrasta quando você tá só com um bebê, então fazia falta não poder ir pra casa de familiares e ficar mais à vontade”, desabafa.

Durante alguns meses da pandemia de Covid-19, a grande maioria dos estabelecimentos comerciais fecharam. Teresa conta que isso trouxe insegurança e a ansiedade para ele que passava por um processo de mudança.

Foto: Arquivo Pessoal 

“Eu passei a gravidez do Abel inteira no auge da pandemia, quando estava tudo fechado. E isso me deixou muito insegura e ansiosa, eu tinha vontade de sair de casa pra comprar coisinhas de bebê, também estava em processo de mudança e tinha medo de precisar comprar tudo pela Internet. Hoje eu vejo que isso não é muito importante. Esses itens iniciais que a gente tem tanta vontade de comprar são inúteis na grande maioria ou perdem rápido”, explica.

Além disso, quando seu filho estava com 4 meses, a jornalista explica que ela e seu marido se infectaram com a Covid-19 e o isolamento, o medo de não saber como seria também despertou mais inseguranças na sua maternidade.

“Tive momentos de insegurança com relação a covid, medo do desconhecido, de como seria, quando meu irmão ou minha mãe andavam na minha casa sempre tinha medo de pegar. Outro momento de insegurança foi quando pegamos covid, todos aqui em casa tivemos ao mesmo tempo, e aí ficamos ainda mais isolados, sem receber qualquer tipo de visita ou ajuda, e lá estava eu sozinha e doente cuidando de um bebê de 4 meses, na época”.

Hoje, grávida novamente de seis meses, Teresa explica que aprendeu lições, que está menos ansiosa, vacinada e conta para as futuras mamães o que é realmente necessário na maternidade.

“E de diferente em relação a gravidez anterior é que agora eu estou menos ansiosa, não tenho mais medo de pegar covid. Estou tão pouco ansiosa que estou aqui no sexto mês e ainda não comprei nada, até porque hoje eu já sei o que é realmente necessário. Então aproveito também pra falar para as futuras mamães que mais importante que quarto bonito, enxoval impecável, é informação, procurarem formar uma rede de apoio, mesmo que virtual, com outras mães. É muito importante poder compartilhar nossas inseguranças e medos quando a gente vira mãe a primeira vez”, ressalta.

Maria Clara e Zuri

“O que eu mais senti com a pandemia foi a solidão”, mãe da pequena Zuri de 1 ano e estudante, Maria Clara desabafa que o principal sentimento durante sua maternidade foi a solidão.

“A maternidade em si já é bastante desafiadora e com a pandemia isso se acentuou ainda mais, o que eu mais senti com a pandemia foi a solidão, ser mãe é muito solitário e estar isolada devido a pandemia só aumentou essa solidão, como eu estive gravida no começo do momento mais crítico da pandemia também foi um momento muito solitário e difícil, com muitos medos na gestação devido ao vírus e também após o nascimento da Zuri por ver aquele serzinho tão frágil nascendo num momento tão conturbado como esse, o medo dela pegar o vírus era muito grande”, conta.

Foto: Arquivo Pessoal

A insegurança, as responsabilidades, que já existem na gravidez se ampliaram durante a pandemia. E hoje, a lição que Maria Clara ressalta é que apesar dos momentos difíceis, tudo passa.   

“A insegurança na maternidade é algo quase que permanente, junto com ela chegam também inúmeras inseguranças, é muita responsabilidade e com a pandemia somaram-se mais inseguranças. Acho que o que eu aprendi foi que nós mães temos que buscar forças em nós mesmas e em nossos filhos porque no final é só o que importa e que tudo passa, é difícil, dói, mas passa, a criança cresce, você aprende e se adapta”, diz.

Ser mãe 

Mesmo com os desafios, dificuldades, medos e inseguranças, o ser mãe supera as incertezas e ressignifica a capacidade de cuidar, amar e criar. Aqui, as mães que conversaram com o Cidadeverde.com e compartilharam um pouco da sua trajetória durante a maternidade em um momento marcado por diversos ricos, contaram o que é ser mãe para elas. 

Pra mim ser mãe é mudança, depois que você é mãe tudo muda, não pra melhor nem pra pior, mas tudo muda, você muda, suas prioridades mudam, sua vida muda, e também aprendizado, aprendizado constante.

Maria Clara, mãe da Zuri

 

Bem, ser mãe para mim é um estado constante e ininterrupto de doação. É estar disponível para aquele serzinho o tempo e quanto ele precisar. Todos os clichês de que "você só vai saber se for mãe" são verdade. O amor é verdadeiramente incondicional, não num ideal romântico de que uma mãe é feliz só por ser mãe, mas sim saber que você precisar estar presente e pronta para atender aquele bebê com amor, carinho e atenção para que ele se alimente, durma, brique e se desenvolva.

Jordana Fonseca, mãe da Tarsila

 

Pra mim ser mãe é ter uma responsabilidade muito grande com a vida de outra pessoa. É reconhecer que eu coloquei no mundo alguém que não pediu pra nascer, então esse ser não me deve nada, eu que devo a ele, e por isso eu procuro me esforçar ao máximo pra fazer o melhor. Ser mãe é um trabalho que dura 24 horas, por 7 dias na semana e que não vai ficando mais fácil a medida que o tempo passa.

Teresa Albuquerque, mãe do Abel

 

 

 

 

Rebeca Lima
[email protected]

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