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Com festas de fim de ano, pacientes vão a PS para desabafar

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 Seu filho corre pela cozinha querendo ajudar a preparar aquela famosa receita, e você rapidamente coloca os cabos das panelas para o lado de dentro e adverte que o forno está quente. Após o susto, você seca o suor no rosto e reclama do calor. Recorda, então, que vai aproveitar as altas temperaturas em breve, quando estiver na praia. Eis o começo de uma história que poderia acabar no pronto-socorro.

A combinação de férias escolares, festas de fim de ano e mudanças climáticas altera os atendimentos nas unidades de saúde nos meses de dezembro e janeiro. Há mais ocorrências de afogamento, queimaduras, quadros gastrointestinais e traumas. Também cresce a procura relacionada a doenças psiquiátricas.

"É um período cheio de simbolismo, a carga emocional é grande e vemos um aumento no pronto-socorro de pacientes que procuram devido a quadros emocionais. Muitas vezes, eles vêm só para falar, desabafar. São pessoas de meia-idade ou mais idosas com quadros depressivos por não terem, por exemplo, sido visitadas pelos parentes ao longo do ano", conta Claudio Isaac, coordenador do pronto-socorro adulto do Hospital Leforte Liberdade, em São Paulo.

Os casos de depressão também tornam-se mais frequentes nesta época nos prontos-socorros da Rede Mater Dei, em Minas Gerais, e exigem das equipes um olhar diferente.

"As pessoas têm um excesso, como abuso de álcool, e acham que é por causa das festas, mas uma investigação mais a fundo pode revelar que o episódio está relacionado a um transtorno psicológico", afirma o diretor-médico da rede, Felipe Salvador Ligório.

O problema é que, no pronto-socorro, o contato é muito mais rápido e superficial do que em consultas e é difícil investigar as causas das queixas emocionais. "O paciente vem à procura de um acolhimento que muitas vezes não conseguimos dar por causa da dinâmica do pronto-socorro", diz Isaac.

O mesmo pode ocorrer em situações como crise de pânico. A pessoa chega ao local com dor no peito e falta de ar, e os médicos verificam a possibilidade de infarto. Excluída essa hipótese, não há estrutura para apurar o que provocou o incômodo.

Nesses casos, há dois caminhos possíveis: internar para aprofundar a investigação, fazendo interconsulta com outras especialidades para fechar o diagnóstico, ou encaminhar para investigação ambulatorial com o psiquiatra.

Os médicos têm observado ainda aumento nos casos respiratórios com suspeita de Covid-19 e, em Minas Gerais, mais pacientes com dengue. "Atendemos regiões onde a dengue prevalece. Com o período chuvoso, de dezembro a fevereiro percebemos aumento na procura", diz Ligório.

No Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre, é uma época em que cresce o número de atendimentos relacionados a afogamentos, segundo Francisco Zancan Paz, diretor-técnico do Grupo Hospitalar Conceição.

O mesmo ocorre em Minas Gerais, repercutindo o observado pela Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático no país. De acordo com a entidade, 45% dos afogamentos ocorrem de dezembro a março. Apenas em 2020, 5.818 brasileiros morreram afogados, com 70% dos casos em rios e represas.

O período de férias e de festas caracteriza-se igualmente por mais acidentes com queimaduras, seja por fogos de artifício ou por acidentes domésticos. "É um período em que crianças ficam mais tempo dentro de casa e é importante observar a segurança do ambiente, como evitar deixá-las perto do fogão e colocar os cabos da panela para dentro", orienta Ligório.

Caso ocorra algum tipo de queimadura, a recomendação é lavar a ferida com água corrente e não passar nenhum outro tipo de material sem consultar a equipe médica. "No pronto-socorro, o tratamento será direcionado de acordo com o tipo de queimadura", afirma ele.

Os médicos destacam ainda a maior ocorrência de casos de diarreia, associados tanto à circulação do rotavírus nesta época do ano quanto aos exageros nas festas. "Os alimentos que preparamos nesta época são do inverno de países frios. São sementes, frutas secas e comidas gordurosas que não ingerimos ao longo do ano e neste período comemos muito. Isso facilita uma gastroenterocolite", observa Isaac.

Além disso, muitas pessoas mudam sua rotina alimentar durante as viagens, e a exposição a novos tipos de gastronomia e a alimentos preparados sem cuidados com a higiene pode levar a intoxicações e quadros infecciosos. Para evitar o problema, os especialistas recomendam verificar como os produtos são manuseados e, no caso de pessoas com intolerância alimentar, sempre checar a lista de ingredientes.

Outro aspecto fundamental é manter o corpo constantemente hidratado. Ficar horas sem fazer xixi, sentir a boca seca, a pele e os olhos ressecados e um maior cansaço são sinais de que já passou da hora de beber água.

Por fim, os médicos lembram que exageros no "projeto verão", em que as pessoas intensificam as dietas e os exercícios físicos para ficar em forma, também costumam acabar no pronto-socorro.

"A pessoa não está acostumada a ter um período intenso de atividade e acaba provocando uma lesão. Também recebemos casos de traumas maiores, por acidentes em cachoeiras e passeios de bicicleta com pessoas desacostumadas a fazer trilhas. Há uma imprudência por não observar e não respeitar o limite esportivo ou radical", aponta Ligório.

Fonte: Folhapress (STEFHANIE PIOVEZAN)

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