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Há 100 anos nascia Alberto Silva

Alberto Silva, um sonhador

 

Por Zózimo Tavares

Para muitos, ele era um tocador de obras; para outros, uma usina de ideias; para a maioria, um sonhador. E todos estavam certos. 100 anos depois de seu nascimento, em 10 de novembro de 1918, na Ilha Grande de Santa Isabel, em Parnaíba, Alberto Silva chega ao seu centenário como um mito da história recente do Piauí.

No decorrer de sua longa e intensa vida pública, encerrada em 28 de setembro de 2009, quando ele tombou em pleno combate, no exercício do mandato de deputado federal, sempre abraçou causas novas e ousadas, algumas polêmicas. Todas, porém, com muito entusiasmo.

Compôs uma das mais vastas e mais completas biografias políticas do Piauí. Na política estadual, foi tudo. Na política nacional, só faltou ser ministro e presidente da República. Mas ocupou cargos na administração federal equivalentes ao de ministro de Estado.

Na passagem do centenário de seu nascimento, Alberto Silva recebe as homenagens dignas de um vulto histórico, patrocinadas pelo Governo do Estado, pela Assembleia Legislativa, as Prefeituras de Parnaíba e de Teresina, a Academia Piauiense de Letras e pelo Sesc Piauí.

Na política por acaso

Alberto silva entrou na política por acaso. Quando era um jovem engenheiro formado na prestigiada Escola de Itajubá, em Minas Gerais, e comandava mais de 3 mil trabalhadores na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ele veio passar férias em Parnaíba.

Era o final de 1947. Por essa época, a velha usina elétrica da cidade só vivia no prego. Houve também uma enchente que alagou os bairros ribeirinhos da cidade.

Em 24 horas, Alberto consertou a usina e bombeou as águas que inundavam Parnaíba. As famílias alagadas puderam voltar às suas casas e as lojas comerciais puderam reabrir as suas portas.

Imediatamente, seu nome ganhou projeção e simpatia na cidade. Os caciques da política local, abrigados na velha a matreira UDN, entenderam de lançar o seu nome a prefeito. Ele relutou, pois seu projeto era seguir a carreira profissional, no Rio.

Na última hora, porém, aceitou o convite-convocação da terra natal para concorrer à Prefeitura, certo de que perderia a eleição, pois o adversário, Darcy Araújo, do PTB, o partido das massas, se apresentava como imbatível.

A eleição foi realizada em 21 de janeiro de 1948 e o jovem engenheiro sagrou-se vitorioso, por apertada maioria. Na prefeitura, fez uma administração revolucionária, com muitas obras de infraestrutura. Ou estruturantes, como se diz atualmente.

Um peixe fora d’água

Nas eleições seguintes, em 1950, elegeu-se deputado estadual. Foi o mais votado de seu partido. Na Assembleia Legislativa, sentiu-se um peixe fora d´água. Com seis meses, renunciou ao mandato e assumiu o cargo de diretor da Estrada de Ferro Central do Piauí, sediada em Parnaíba.

Fez outra gestão revolucionária, restaurando e ampliado a malha ferroviária e substituindo as velhas “marias-fumaça” por trens modernos.

Em 1954, elegeu-se para um novo mandato de prefeito de Parnaíba. Ao final, retornou para a direção da Estrada de Ferro, dando novo impulso à ferrovia.

No começo da década de 60 foi morar em Fortaleza. A convite do governo cearense, dirigiu a companhia estadual de energia e eletrificou todo o Ceará.

 

Alberto Silva: no governo, o tocador de obras

No Governo do Piauí

Em 1970, foi indicado para ser governador do Piauí. Houve resistências e ele foi o último daquela safra a ser escolhido.

Chegando de paraquedas ao Governo do Piauí, contra a vontade do esquema político liderado pelo senador Petrônio Portella, político em ascensão no plano nacional, logo deu a volta por cima.

Fez um governo absolutamente inovador e realizador. O Piauí virou um canteiro de obras, de ponta a ponta.

“A confiança do povo explodiu já nos primeiros meses do novo governo. Explodiu é bem o termo, para definir a euforia que surpreendeu a população”, recordava Alberto, ao fazer um balanço daquele período.

Ele lembrou ainda que o mercado de trabalho ampliou-se de forma fenomenal com o grande volume de obras públicas jamais visto, e a renda regional entrou num ritmo distributivo até então desconhecido no Estado.

Albertão, símbolo de uma era de euforia

Um nome proscrito no Piauí

Do Governo do Piauí, Alberto alçou voos para importantes cargos federais. Foi coordenador do Programa de Desenvolvimento Industrial e Agrícola do Nordeste (Polonordeste) e presidente da Empresa Brasileira de Transportes Urbanos (EBTU), responsável pela construção dos metrôs do Rio e de São Paulo, entre outras obras.

Com sua ausência do Piauí, para o exercício desses cargos, o esquema político que lhe fazia oposição tratou de varrer o seu nome do mapa.

Fora do governo, amargou o desprezo e a censura. Seu nome era proibido nos meios de comunicação locais, por imposição do governo.

Se alguma vez aparecia na imprensa, era em condições desfavoráveis ou amparado em liminares judiciais para se defender de agressões praticadas contra ele.

Mesmo com tantas obras e presente na memória dos piauienses, nas eleições de 1978 perdeu a eleição para senador e, em 1982, para governador.

A tormentosa volta ao poder

Em 1986, aliou-se ao seu mais ferrenho adversário politico, o ex-governador Lucídio Portella, e voltou ao Governo do Estado pelo voto direito. Lucídio foi seu vice.

A aliança política jamais imaginada revelou um Alberto Silva como homem de diálogo e sem ressentimentos.

Depois disso, ao longo de sua carreira, ele se compôs com vários outros adversários ferrenhos do passado.

O ex-prefeito Wall Ferraz, um crítico de seu segundo governo, acabou sendo seu candidato a governador, em 1990.

O último com quem Alberto fumou o cachimbo da paz foi Hugo Napoleão, que o derrotou na disputa pelo governo, em 82.

No seu segundo governo, Alberto viveu um período amargo de sua vida pública. Eram tempos diferentes daqueles idos de 70, a época do ‘milagre brasileiro’.

Além disso, a oposição foi implacável e procurou de todas as formas sabotar a sua administração e ridicularizar o governador, para enfraquecê-lo para as eleições de 90. Conseguiu.

Os altos e baixos

Ao contrário de 1975, quando deixou o governo nos braços do povo, Alberto Silva saiu em baixa do governo, em 1991.

No ano seguinte, perdeu a eleição para prefeito de Teresina. Em 1994, começou a se recuperar e conquistou o mandato de deputado federal.

Em 1996, perdeu novamente a eleição para prefeito da capital e, em 98, reconciliou-se definitivamente com o eleitorado, recebendo nas urnas o mandato de senador.

Conquistou mais dois mandatos de deputado federal, sem fazer campanha.

Grandes projetos fracassados

Nem todos os arrojados projetos de Alberto Silva deram certo. Muitos deles ficaram inacabados pelo caminho ou simplesmente não se viabilizaram.

É o caso do porto marítimo de Luís Correia. No governo e fora dele, Alberto moveu céus e mares para concluir a obras, mas não conseguiu.

O porto, um sonho secular do Pauí, ainda é uma obra inacabada até hoje. Está completamente abandonado.

Outro projeto seu que não andou foi o do restabelecimento da navegação do rio Parnaíba. Sua ideia era possibilitar a recuperação do rio, que está em condições bem mais críticas do que na época do seu segundo governo, quando lançou a ideia, sintetizada no “Navio do Sal”.

A agonia do rio não sensibilizou a classe política piauiense. O Parnaíba segue em sua correnteza mansa rumo à morte anunciada.

O nome que fica

Com formação aristocrática e vasta cultura, Alberto Silva foi um político educado, polido, incapaz de destratar um adversário.

Como um cardeal, não levantava a voz. Um comunicador nato, convincente. Impunha-se pela presença. Gostava de falar mais de obras e projetos do que de politica.

Apesar de todos os cargos públicos exercidos e dos mandatos eletivos desempenhados, levou uma vida familiar e pessoal modesta, ao lado da mulher, dona Florisa, companheira inseparável de todas as lutas, alegrias e tristezas, derrotas e conquistas.

Alberto Silva é lembrado pela sua geração como um idealista, um sonhador, um obstinado e, sobretudo, um realizador.

Um governante que fez o Piauí sentir-se grande.

BR-135, antiga PI-4, interligação Sul  do Piauí

Obras e serviços que popularizaram Alberto Silva

- Albertão

- asfaltamento de mais de 1.000 quilômetros de estradas federais e estaduais;

- ampliação do sistema elétrico do Piauí, com energia da usina de Boa Esperança;

- implantação da reforma do ensino, com a criação do Estatuto do Magistério e do Salário Móvel para os professores;

- implantação da Universidade Federal do Piauí;

- Maternidade de Teresina e Hospitais de Floriano e Picos;

- Hospital de Doenças Infecto-Contagiosas  (HDIC) e Ambulatório do HGV;

- Zoobotânico;

- reforma urbanística e ampliação do sistema viário de Teresina;

- construção do dique de proteção da zona Norte contra as enchentes, transformado na Avenida Boa Esperança, que leva ao Encontro dos Rios;

- reforma e ampliação do Theatro 4 de Setembro, reinaugurado com o Corpo de Baile do Teatro Municipal de Rio de Janeiro e a Orquestra Sinfônica Nacional;

- Monumento aos Heróis do Jenipapo, em Campo Maior;

- Projeto Piauí;

- reforma e modernização do Palácio de Karnak;

- construção do edifício-sede do Tribunal de Justiça do Piauí;

- Poticabana;

- Metrô de Teresina;

Com Alberto Silva no governo, o Palácio de Karnak virou um cartão postal