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A ignorância é a mãe da coragem

  • Infografico_Vacina1.jpg Pesquisa FAPESP
  • Infográfico_Vacina_2.jpg Pesquisa FAPESP

A ignorância é a mãe da coragem

 

Abro este post de domingo com uma frase que cunhei para referir-se às minhas fortes habilidades de escrever sobre quaisquer temas quando, na minha modesta opinião, não tinha cabedal de conhecimentos pra fazê-lo. Mas a frase se aplica dentro de um contexto atual e preocupante: a baixa taxa de cobertura de vacinas em todo o país.

O Portal Cidade Verde fez uma matéria que me deixou estarrecido sobre a falta de cobertura de vacinação na cidade de Teresina e no Piauí como um todo. Entrevistou o gestor da área em Teresina que propôs até a possibilidade de se estabelecer uma lei para obrigar os pais a levarem seus filhos para vacinação. Isso não seria novidade no país, visto que no início do século XX ocorreu no Rio de Janeiro a famosa Revolta da Vacina, onde a população ficou literalmente revoltada com a obrigatoriedade em vacinar-se contra febre amarela, peste bubônica e varíola que eram doenças que assolavam a população do Rio de Janeiro em razão, principalmente, das condições sanitárias da época. A revolta ocorreu entre 10 e 16 de novembro de 1904 motivada, entre outras coisas pela obrigatoriedade em apresentar comprovantes de vacinação para matrícula dos filhos nas escolas, para admissão no emprego, para viajar e até para casar, que havia sido estabelecida como obrigatória a partir de janeiro daquele ano. Apesar do estopim ter sido a obrigatoriedade das vacinas, a revolta também foi motivada pelo canteiro de obras de saneamento no Rio que derrubou cortiços e modificou as condições de moradia da população, gerando a desarmonia e dissabores para boa parte da população.

É compreensível que no início do século passado, dadas as condições de compreensão e cultura das pessoas daquela época, algo deste tipo tivesse ocorrido. Afinal as mudanças sociais e econômicas estavam em efervescência, como mudança de Monarquia para República, abolição da escravatura e mudanças estruturais que afetavam o cotidiano da capital federal, em meio a remoção de populações e das obras de saneamento conduzidas por Pereira Passos, engenheiro e prefeito da cidade.

O incompreensível é que a rejeição ao processo de imunização das crianças esteja ocorrendo agora, no século XXI, em plena evolução do acesso às informações, sendo necessário ter que se estabelecer punições contra os pais que não tem a boa vontade de fazer valer um direito pétreo dos seus filhos: direito a saúde.

 

O que está por trás desta “fuga das vacinas”?

Resposta simples: a ignorância. Com o estabelecimento das rotinas de vacinação e sua intensificação, principalmente da década de 1980 para cá, muitas das doenças que acometiam as crianças das décadas anteriores desapareceram ou reduziram drasticamente seu espectro. A redução gerou o senso comum de que as doenças haviam sido extintas.

Soma-se a este quase “desaparecimento” das doenças a contribuição negativa do cientista inglês Andrew Wakefield que publicou em 1998 na conceituada revista Lancet que a vacina contra Sarampo, Rubéola e Caxumba causava distúrbios gastrointestinais, que geravam uma inflamação cerebral responsável por gerar na criança um quadro de autismo. Uma pesquisa feita com 11 crianças com um efeito desastroso para comunidade do Reino Unido e que ajudou a espalhar a boataria para o resto do mundo. Em 2010 o autor deste desserviço foi julgado pelo Conselho de Medicina da Inglaterra como irresponsável e inapto para o exercício da profissão, que identificou um conflito de interesse, pois o mesmo havia desenvolvido uma vacina contra o Sarampo não contratada pelo Governo pelo fato da outra vacina ser mais abrangente.

 

A poliomielite

Causada pelo Poliovírus (sorotipos 1, 2 e 3) a poliomielite é doença bastante perigosa e quando não mata deixa sequelas permanentes, como a atrofia de membros. A doença pode ser evitada com o uso de duas vacinas distintas: a Sabin (via oral) e a Salk (injetável), ambas com excelente grau de imunização dos pacientes. A Polio ainda afeta muitos países no mundo. Os últimos surtos foram detectados na República Dominicana, Haiti, Madagascar e Nigéria. Então, se o vírus ainda acomete populações por aí, significa que a doença não está extinta. E a movimentação das pessoas neste mundo globalizado pode fazer com que novos surtos ocorram, especialmente nas regiões onde o nível de imunização na está adequado.

 

Cobertura vacinal

A revista Pesquisa FAPESP, em sua última edição mostrou dados estarrecedores sobre a queda na imunização, levantados no Brasil.

Só para se ter uma ideia, apenas cinco unidades da federação conseguiram atingir a cobertura vacinal no país. Há, neste momento, um fluxo migratório intenso, especialmente de cidadãos da Venezuela, uma nação onde as coberturas vacinais não são adequadas. Resultado disso: mais de 200 pessoas contaminadas com o vírus do Sarampo e cinco óbitos.

O infográfico produzido pela Revista Pesquisa FAPESP orienta as vacinas e a idade em que precisam ser administradas com a finalidade de proteção das crianças (Vide galeria de imagens).

Você deve estar se perguntando: o que este título tem a ver com este post?

Só os ignorantes teriam a coragem de deixar de vacinar seus filhos, pois quem conhece o poder destas doenças infecciosas e sabe da importância da vacinação não cometeria um vacilo destes.

Não vacile, vacine!