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Cristiano Ronaldo luta contra adeus melancólico da Copa em meio a chiliques, recordes e polêmicas

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Quando olhou para a beira do gramado e viu seu número aparecer na placa de substituições, Cristiano Ronaldo explodiu de raiva.

Ainda faltavam 30 minutos e mais os acréscimos da partida contra a Coreia do Sul, pela última rodada da fase de grupos, quando Fernando Santos resolveu tirar o capitão português.

Ele passou a braçadeira para o zagueiro luso-brasileiro Pepe e foi flagrado pelas imagens oficiais da Fifa dizendo algo como "que pressa do caralho de me tirar."

Era mais uma polêmica para a lista do camisa 7 no Qatar. Naquela que deverá ser a última Copa do Mundo dele, tem sido assim desde os dias que antecederam a estreia lusitana na competição.

Desta vez, nem o técnico português colocou panos quentes. "Se eu já vi [a reação dele no jogo]? Vi. Se eu gostei? Nada. Não gostei nada mesmo."

Na véspera do confronto com a Suíça nesta terça-feira (6), pelas quartas de final, às 16h (de Brasília), em Lusail, o comandante evitou cravar o atacante como titular. "Vou colocar a equipe que eu acho que tem que jogar o jogo."

Seria uma grande surpresa, no entanto, se o jogador perdesse a posição na equipe mesmo não sendo mais uma unanimidade como costumava ser.

O jornal português A Bola fez uma enquete sobre a escalação de Cristiano Ronaldo e, segundo a publicação, 70% dos torcedores acreditam que ele deveria começar o jogo com os suíços no banco.

O periódico não divulgou o número de participantes da votação, portanto, não é possível saber o tamanho da amostra, mas a porcentagem chama atenção por se tratar do camisa 7, o maior ídolo do país e responsável por mudar o patamar da seleção portuguesa.

Foi com ele que a nação conseguiu conquistar os dois primeiros títulos de sua história, a Eurocopa de 2016 e a Liga das Nações de 2019.

Na campanha da Euro, curiosamente, ele também começou a competição questionado, à época, por suas atuações ruins. Na estreia, contra a Islândia, foi anulado no empate por 1 a 1. Na rodada seguinte, perdeu um pênalti no 0 a 0 contra a Áustria.

Só deslanchou a partir da terceira partida, quando fez dois gols no empate com a Hungria, por 3 a 3, resultado que classificou Portugal para a fase seguinte como terceiro de sua chave ele também se tornou o primeiro jogador a marcar em quatro edições da Euro.

A partir dali, ele se transformou no herói da conquista. Deu o sangue pelo time mesmo quando não pôde jogar, como na decisão contra a França. Ele se machucou aos 24 minutos e deixou o gramado chorando.

Mas não se conteve no banco de reservas. Empenhado a ajudar o time, atuou quase como um segundo técnico ao lado de Fernando Santos.

A torcida reconheceu o papel dele, sobretudo na hora de passar confiança ao atacante Éder, que entrou no final da partida e ouviu do camisa 7 a profecia de que seria dele o gol do título. Foi.

No Qatar, esse papel de liderança tem sido menos notável. Pelo contrário, Cristiano Ronaldo tem causado mais problemas do que soluções para o time.

A saída conturbada dele do Manchester United, às vésperas do início do Mundial, contaminou o elenco lusitano durante a preparação no Oriente Médio.

Enquanto o time tentava se concentrar na busca pelo inédito título, o litígio do jogador com o clube inglês dominava as manchetes dos jornais da Europa e reverberava entre os atletas portugueses em Al Shahaniya, onde a delegação está hospedada.

A enxurrada de perguntas sobre o assunto deixava os outros jogadores incomodados.

Causou, inclusive, um desconforto com o meia Bruno Fernandes, que além de companheiro do atacante na seleção, também é atleta do United. A despeito do problema, os dois mostraram boa sintonia nos jogos contra Gana e Uruguai.

Diante dos africanos, Cristiano Ronaldo se transformou no primeiro jogador a marcar em cinco Copas do Mundo. Contra os sul-americanos, Bruno fez os dois gols da vitória.

Com a classificação antecipada para as oitavas de final, a situação parecia contornada. O cenário só mudou, novamente, por causa do próprio Cristiano Ronaldo.

A reação destemperada após a substituição no jogo com a Coreia colocou em xeque a capacidade dele de unir o grupo em torno do objetivo de ganhar o Mundial.

Tudo isso justamente num momento inédito da carreira do craque. Pela primeira vez, ele disputa uma Copa na condição de desempregado.

Desde a rescisão com o Manchester United, não houve nenhuma proposta formal de grandes clubes da Europa. Por enquanto, apenas times de centros alternativos estão tentando contratar o jogador.

Segundo o jornal espanhol Marca, ele estaria a caminho de fechar com o Al-Nassr, da Arábia Saudita.

Apesar da boa oferta financeira, esportivamente não é o que o jogador esperava. Na última janela de transferência, por exemplo, ele tentou sem sucesso sair do United porque o time não disputa nesta temporada a Champions League.

Se não fizer uma boa campanha no Qatar, principalmente no decisivo jogo com os suíços, o cenário para ele deverá ficar ainda mais difícil.

Aos 37 anos, Cristiano Ronaldo luta para evitar um fim de carreira melancólico, longe dos grandes palcos do futebol mundial.

ESCALAÇÕES

Portugal deve voltar a campo com o time titular, após ter escalado reservas na partida contra a Coreia do Sul.

O volante Otávio voltou a treinar com a equipe após ter se recuperado de desconforto muscular na coxa, e deve estar à disposição. Por outro lado, Danilo Pereira, com lesão nas costelas, segue como dúvida.

O técnico Fernando Santos pode ir a campo nesta terça com: Diogo Costa; Dalot (Cancelo), Pepe, Rúben Dias e Raphael Guerreiro (Cancelo); Rúben Neves, Otávio (William Carvalho) e Bernardo Silva; Bruno Fernandes, Cristiano Ronaldo e João Félix.

A Suíça, por sua vez, conta com o retorno do goleiro Yann Sommer, recuperado de gripe. O técnico Murat Yakin deve escalar uma equipe com: Sommer; Widmer, Akanji, Schar e Rodríguez; Freuler e Xhaka; Shaqiri, Sow e Vargas; Embolo.

LUCIANO TRINDADE
DOHA, QATAR (FOLHAPRESS)

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