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Época destaca situação crítica do Parque Serra da Capivara

Em matéria publicada na última sexta-feira (07) o site da revista Época destaca a atual situação do Parque Serra da Capivara. A reportagem alerta que o maior patrimônio de arte rupestre do Brasil pode se deteriorar e até perder o status de Patrimônio da Humanidade.

A matéria fala sobre a dimuição gradativa nos repasses para manutenção do parque e sobre o potencial turístico mal aproveitado do local, por conta da falta do descaso com que é tratada a importância científica do parque.

Confira a matéria:

No interior do Piauí, em São Raimundo Nonato, é possível encontrar as pinturas mais antigas já feitas por humanos no Brasil. São desenhos em pedras de mais de 10 mil anos que sobreviveram ao tempo pelo fascínio e pelo medo que causaram nas populações antigas, sejam indígenas ou do período colonial. Essas imagens pré-históricas, entretanto, correm o risco de sumir no tempo por negligência nossa. O Parque Nacional Serra da Capivara, criado para protegê-las, sofre com falta de pessoal e falta de recursos e corre o risco de perder o status de Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco.

O parque foi criado no final da década de 1970. Inicialmente, era mais um dos famosos "parques de papel": seus limites foram definidos, o parque foi decretado, mas não tinha pessoal para cuidar da áreas, nem cercas, sedes ou trabalho científico dentro da área delimitada. Isso só foi mudar na década de 1980, quando uma missão de pesquisadores franceses e brasileiros estabeleceu a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), uma organização sem fins lucrativos que até hoje cuida do patrimônio natural e cultural do parque.

A arqueóloga brasileira Niéde Guidon, diretora da fundação, conta que por muitos anos o parque conseguiu se sustentar por meio da Lei Rouanet e por repasses de empresas como compensação ambiental. Quando o governo centralizou os repasses de compensação em um fundo nacional, em 2006, esse recurso começou a ficar mais difícil de se obter. Com o passar dos anos, os orçamentos do Ministério do Meio Ambiente e do Ministério da Cultura só diminuíram, e consequentemente o parque passou a receber cada vez menos recursos. O resultado foram as demissões. Como ÉPOCA mostrou no começo do ano, 270 funcionários foram demitidos em 2014. A expectativa é que o parque tenha de funcionar com apenas 20 funcionários – 20 pessoas para cuidar de 100 mil hectares.

A situação de abandono do parque é um grande desperdício ambiental, econômico e científico. O parque, formado por quatro serras na Caatinga, entre elas a Serra da Capivara, tem paisagens belíssimas, conserva espécies importantes de flora e fauna e tem grande potencial para turismo de aventura, com trilhas e escaladas. Mas o que mais impressiona são as pinturas feitas pelos primeiros homens a habitar a América. Esses vestígios arqueológicos estão entre os mais importantes do Brasil, e são peças-chave nos debates sobre a teoria de como o Homo sapiens chegou à América.

A teoria mais aceita atualmente é de que a humanidade chegou às Américas vindo da Rússia, pelo Estreito de Bering, durante a Era do Gelo. Essa onda migratória ocorreu há cerca de 15 mil anos. Só que na Serra da Capivara foram datadas pinturas de 28 mil anos. Isso levou a debates de novas teorias e até mesmo da possibilidade de que os primeiros homens americanos tenham chegado por acidente, em uma travessia improvável pelo oceano.

Segundo Niéde, a Serra da Capivara concentra a maior quantidade de sítios arqueológicos de arte rupestre de todo o mundo. "Temos peças de pedra lascada de alta tecnologia, idêntica a dos povos pré-históricos da Europa e África. A pedra polida, a cerâmica, aparecem aqui no mesmo momento em que aparecem nos outros continentes, o que mostra que os povos que aqui viviam desenvolveram tecnologia e cultura do mesmo modo que no resto do mundo", diz.

Toda essa riqueza fez com que a região fosse transformada em patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, em 1991. Com a situação atual do parque, esse título está em risco. Sem a proteção e os cuidados das artes rupestres, a área poderá se deteriorar. "A principal ameaça vem das consequências da falta de proteção e manutenção. Retorno da caça, falta de água para os animais, incêndios, pichações, roubos de equipamentos, etc. Deixaria de ser um Parque Nacional e um Patrimônio modelo, como ainda é considerado, a ser mais um lugar abandonado e destruído pelo homem e pelo tempo. Sem proteção, sem manutenção dos sítios de arte rupestre, perderá seu titulo de Patrimônio da Humanidade", diz Niéde.

A pesquisadora já desistiu de esperar uma solução nas esferas governamentais. A aposta agora é no turismo. Com todos os problemas, o parque ainda consegue atrair cerca de 25 mil turistas por ano. Estudos de viabilidade econômica indicam que ele poderia atrair até 6 milhões de turistas por ano. Isso colocaria a Serra da Capivara no mesmo patamar das Cataratas do Iguaçu, o parque brasileiro mais visitado. O problema é o acesso. O aeroporto na região está em construção desde 1997 e ainda não foi concluído. A própria Niéde fez doações, do próprio bolso, para a conclusão do aeroporto, que nem assim foi concluído. Os aeroportos mais próximos estão em Teresina (PI) e Petrolina (PE), obrigando os turistas a encarar horas de viagem de ônibus ou carro.

Enquanto os turistas e os recursos não vêm, o parque está sendo obrigado a pedir doações de pessoas físicas. "Por enquanto, continuamos atrás de doações e patrocínios. Criamos uma conta na qual as pessoas podem doar qualquer quantia, a somatória de numerosas pequenas doações pode significar a solução paliativa", diz Niéde. Doações pessoais estão longe de resolver o problema, mas podem ajudar a manter um conjunto de obras de arte feitas por pessoas que não pediram nenhum dinheiro em troca, há milhares e milhares de anos – e deixaram um património valioso a ser preservado.

Com informações da Revista Época
Rayldo Pereira
rayldopereira@cidadeverde.com