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O Sr. Corona e o nosso Recomeço - Por João Silvério Trevisan

Por João Silvério Trevisan

Eu estava limpando a casa, enquanto ouvia as notícias do aumento de infecção pandêmica nas periferias da cidade e do país. Ao lado de doentes nos hospitais, cadáveres esperam por carros funerários sobrecarregados de trabalho. Nos cemitérios, os coveiros não dão conta de enterrar. Alguns locais estão construindo às pressas estruturas com túmulos verticais para enterrar os corpos que chegam incessantemente.

Especialistas alertam que é só o começo. O vírus apenas chegou aos locais mais distantes ou aglomerados humanos, como favelas e cadeias. No centro da cidade, pessoas sem teto e drogados andam a esmo, gritando em desespero. Os presídios lotados começam a se agitar ante a compreensão de que seu confinamento pode ser letal. Nossos indígenas se sentem indefesos ante os primeiros contágios, sem médicos nem plano emergencial.

Com sua pulsão de morte tornada necropolítica, BolsoNero insta as pessoas a irem para as ruas. Um vírus perverso se aproveita do vírus inocente e põe gasolina na fogueira. A subnotificação permite que parte da população não sinta o peso exato da pandemia e afrouxe os cuidados. Arma-se uma bomba de efeito retardado. A aflição me faz suar frio.

Do outro lado da rua, ouço gritos que se aproximam da minha janela. Corro vestir uma das minhas máscaras-cuecão. O sr. Corona fala indignado: “Vocês humanos criaram tamanha desigualdade que até na igualdade da morte permanecem desiguais. Que nojo!”

Sim, e agora a pandemia nos dá um retrato claro de como a sociedade é injusta na vida e na morte. Como falar em quarentena para famílias que vivem amontoadas em cubículos? O sr. Corona lê meus pensamentos e completa: “E quem não pode parar de trabalhar, sob pena de não ter comida na mesa amanhã?”

Mas o que me faz perder o sono é que sempre soubemos da desigualdade, e de tanto ver o óbvio por décadas acabamos achando que tudo era natural. O sr. Corona não perdoa: “Que tipo de lentes vocês humanos usam para distorcer a realidade? Ou sabiam da sua visão comprometida e nunca procuraram trocar as lentes?”

Talvez por ser o emissário da Derradeira Verdade, o sr. Corona dá a dimensão exata da improvisação e do desastre que é nosso organismo social. Ele me encara sério: “Aquele por quem o sino bate se encontra tão enfermo que sequer sabe que o sino bate por ele.” Poxa, o sr. Corona cita o imenso John Donne, então complemento a parte que me cabe na citação: “Mesmo que eu pense estar resguardado, quem vê meu estado real sabe que o sino funerário toca por mim. E eu não percebi.”

Sinto aflição ao compreender que no perigo sofrido pelo outro contemplo o meu próprio, porque fazemos parte de um mesmo tecido. Olho para o sr. Corona, que demonstra alguma alegria quando diz: “Eu e minha estirpe virótica sempre amamos o som dos sinos. Eles falam mais do que mil livros.” Sim, o sr. Corona está moldando nossa consciência. Então me pergunto: terá sido necessário chegar um vírus novo para pensarmos em voltar ao princípio e recomeçar?