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Como será o mundo pós-pandemia?

Por Marcela Amaral e Luiz Mello

[email protected] de Sociologia, da Faculdade de Ciências Sociais, e integrantes do Ser-Tão, Núcleo de Ensino, Extensão e Pesquisa em Gênero e Sexualidade, da Universidade Federal de Goiás.

Sendo otimistas, talvez, em meados de 2021 tenhamos uma vacina contra o coronavírus. Até lá e mesmo depois, havéra milhares ou milhões de mortes, a depender da nossa capacidade de manter o isolamento social, definido pela comunidade científica como o único mecanismo eficaz no momento para diminuir os índices de contaminação e evitar a falência dos sistemas de saúde.

No tocante ao mundo pós-COVID-19, os cenários são ainda mais incertos. Toda projeção não passa de desejo, fantasia, especulação – na linguagem popular, chute ou exercício de futurologia. Ciência é feita para conhecer a realidade e contribuir para tornar a vida das pessoas melhor. Nunca para prever o futuro, ainda mais considerando as infinitas variáveis que influenciam a dinâmica da vida social. Afinal, a realidade é construída a partir de decisões políticas, fundadas em disputas entre visões de mundo e interesses diversos. As regras do jogo - e as armas do crime - são definidas não por cientistas ou cidadãos comuns, mas por banqueiros, empresários e donos do agronegócio, para não falarmos em traficantes de pessoas, armas e drogas, entre outros poucos privilegiados. São quase todos homens brancos, detentores das maiores riquezas e amplamente representados por políticos eleitos em defesa de seus interesses.

Se em meio à pandemia a lógica da política e do produtivismo escancara a disputa irracional entre a garantia da riqueza de poucos e da vida de todos, uma evidência parece inconteste nesses tempos: o lugar central das mulheres na resistência e na construção de um novo mundo. São elas a maioria dos profissionais de saúde e limpeza que estão nos hospitais, cuidando das pessoas;  dos responsáveis pela educação das crianças e atenção aos idosos; dos cientistas à frente de laboratórios de pesquisa e parlamentares nas casas legislativas, em busca da cura para a doença e da garantia das condições de vida das pessoas. E são elas que, mesmo estando mais vulneráveis à violência no âmbito doméstico, buscam garantir proteção a si e aos demais, por meio da construção de diversas redes de solidariedade e apoio mútuo.

Se até agora há um aprendizado, em meio à tragédia que se desenha, é o decorrente do exemplo das mulheres, especialmente as feministas e ainda mais as feministas negras, que propõem uma outra maneira de viver em sociedade, mais solidária e menos hierarquizada. Em escala planetária, o futuro é mulher. Ou não será. Especificamente no caso brasileiro, o futuro, além de mulher, precisa ser construído a partir do olhar das pessoas negras, maioria em nosso país. Ou também não será. Um caminho concreto por onde começar? A taxação das grandes fortunas. Sem dinheiro, sem ciência e sem ação política em defesa dos mais vulneráveis, não há saída no horizonte. Desde antes do pandemônio produzido por essa pandemia. Agora mais que nunca.

Fonte: Ser-Tão