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"Influenciadores Digitais colocam em circulação estilos de vida, gostos e bens culturais", analisa Psicóloga Flora Fernandes -Entrevista

A cultura digital vem passando por mudanças ao longo de seu desenvolvimento. Na década de 90 tem-se a Web 1.0: comunicação pela rede mundial de computadores marcada por internet discada e  incipiente interação entre usuários do universo virtual. No Brasil, o burburinho com mundo digital inicia em 1995 com acesso via surgimento de vários provedores e plataformas de conteúdo como UOL, BOL.

Novos tempos se anunciam com a chegada da Web 2.0: maiores fluxos informacionais, possibilidades de ampliar e intensificar interações por meio de Blogs, Mídias Sociais colaborativas, Chats. A multiplicidades de vozes subjetivas, de grupos organizados, de segmentos identitários, de sujeitos  narcisistas, todos  encontraram meios de ecoar  discursos  via produção de conteúdos   personalizados de acordo com demandas especificas. 

Neste contexto, o advento da vida digital 2.0  possibilitará à  cultura contemporânea passar por metamorfoses e processos de amplificação de   suas formas influir, organizar,  pensar e agir dentro  das relações sociais, políticas, econômicas e socioculturais. É um terreno propício para surgimento do cenário de narrativas protagonizadas pelos denominados Influenciadores Digitais.

Afinal, como compreender o papel e impactos dos discursos desses personagens urbanos na vida configurada dentro da cibercultura? Qual a responsabilidade ética dos influenciadores com Direitos Humanos? A Escola está sabendo organizar sua prática pedagógica e educativa para dialogar/refletir/problematizar  o impactos das  mídias sociais e presença significativa de Influenciadores Digitais na cultura juvenil? 

Para fazer uma reflexão provocativa sobre o tema dos Influenciadores Digitais, o blog traz entrevista com Psicóloga e pesquisadora Flora Fernandes Lima: mestra em Comunicação Social, Especialista em Psicoterapias Corporais, servidora pública municipal, atuante  na área de psicologia comunitária e hospitalar.

 

P. Do ponto de vista psicossocial, quem são os Influenciadores Digitais na era das mídias sociais?

Resp. Os blogs constituíram-se os  primeiros espaços de apropriação de construção de falas e funcionaram em sua grande parte como locais para publicar diários pessoais, páginas informativas e espaços de opinião. Cessou então a necessidade de intermediação para declarar opiniões em público e o início da possibilidade de fomento da própria visibilidade. Os antes conhecidos como blogueiros, em decorrência da origem,  passaram a partir de 2015 a ser conhecidos como influenciadores digitais devido a uma reapropriação do termo e de sua funcionalidade pelo mercado, uma vez que seu campo de influência já não mais se restringia aos blogs e sim a toda uma diversidade de mídias sociais. 

  Considera-se que os influenciadores digitais podem colocar discussões em circulação e influenciar decisões com relação ao estilo de vida, gostos e bens culturais daqueles que estão em sua rede. Alguns possuem muitas conexões com alto volume de comentários e interações e podem atuar como referências e como legitimadores de conteúdos e produtos.

 Os influenciadores produzem  conteúdos diversos: fotos, vídeos e outras práticas discursivas.  Percebe-se  uma narrativa de construção de pessoa pública que gira em torno do próprio eu. Nesse sentido, uma  cultural de exibição do eu favorece  espaço para que algumas pessoas de fato alcancem visibilidade, deixando o local de usuário comum da rede e passando a ser visualizado como uma marca e, como importante diferencial, filtram as informações que chegam aos mais variados públicos.

Apesar da distância efetiva, a presença dos influenciadores digitais é visível no cotidiano, dando uma sensação de familiaridade, proximidade e confiabilidade, não viáveis na mídia tradicional. O destaque do grupo, a distinção em meio aos demais, tem a ver com um processo de reconhecimento alcançado por meio do uso de estratégias de linguagem na construção da imagem de si mesmo e administração da própria visibilidade. São pessoas que conseguem ler e movimentar-se dentro da linguagem que é demandada e constroem narrativas a respeito de si mesmos, um “eu” passa a ser, na verdade, também um personagem.

  Estamos vivendo um momento em que se processam novas formas de construção de identidades, agora atravessadas pelas redes sociais e demais conexões virtuais, arranjo que possui cada vez mais frequente. Não seria possível falar em influenciadores digitais em uma época que não fosse a nossa por que são um fenômeno emergente nas atuais formas de organização social, econômica e tecnológica em que se apresentam – uma forma de comunicação e relação específica de nossa época.

Estamos em um momento em que a busca pela construção da imagem de si cada vez mais valorizada e sua possibilidade de ver e ser visto intensificada acarreta inclusive em mudanças na relação entre limites entre o público e o privado. Essa relação é o que inicialmente sustenta o despontar dos blogueiros, são pessoas que mostram sua intimidade.

Assim como as marcas, passam a ter também valores agregados e podem também associar-se a produtos ou idéias. É possível, além disso, nesse contexto moldar a imagem e filtrar apenas aquilo considerado conveniente. Dessa forma conseguem administrar dentro desse espaço de relações a construção de uma legitimidade, consolidada através dessas mesmas relações em interação com a imagem que constroem

 

P. Durante segunda metade do século XX até hoje, a indústria cultural produziu personalidades mitificadas pela linguagem e discursos do cinema, da TV, do mundo esportivo, do showbusiness. Eram/são celebridades representativas que representam um modo de ver e viver as relações sociolturais. Os Influenciadores Digitais contemporâneos representam/reproduzem que visão de sociedade e cultural?

Resp. As identidades são o resultado de um processo de construção interpessoal influenciado pela cultura. Não são mais, em muito por influencia da internet, restritas às referências do local onde se nasce e sim de vários elementos integrados e mesclados de várias outras culturas, em um processo denominado por autores como Garcia Canclini como “hibridização da cultura”

De certa forma, todos são possíveis consumidores dos mesmos bens, serviços e também identidades culturais. Existem, então, várias “possibilidades” de identidades a serem “vestidas” e que não necessariamente levam em consideração a história e vínculos sociais prévios, a exemplo de muitos jovens que integram elementos da cultura japonesa as suas vivências. As diferenças culturais reduzem-se e passa a haver a tendencia a uma “homogeneização cultural” uma identidade com padrões universalizantes e que gera subjetividades e formas de pensar muito similares.

 As múltiplas identidades e possibilidades também geram efeito que se traduz num impasse entre desejo por segurança e necessidade de adaptação continua rumo as novas possibilidades,  a modernidade liquida já bem conceituada por Bauman. Sob esse aspecto, faz-se importante pontuar que a razão da quantidade de identidades relaciona-se com o fluxo de consumo em que estas, e todos os bens que precisam ser consumidos para que a mesma se sustente, são valorizados.

A construção das identidades e personas reflete processos simbólicos e sociais performados através de janelas de exposição proporcionadas pela virtualidade. Os cliques, fotos de refeições, preferencias ou mesmo parcerias declaradas em influencers que “testam” produtos não são, portanto, aleatórios e traduzem um fluxo que perpassa, para além da cultura e estruturas sociais, questões que são também econômicas

O lugar adotado pelos influenciadores, que não visam um publico único e sim uma multiplicidade destes fragmentados em diversas audiências, mostra-se conforme as leituras e valores simbólicos do grupo ao qual pretende-se atingir que existem ainda, mesmo a despeito da grande tendência a homogeneização de subjetividades.

P. Como pensar o papel ético dos Influenciadores Digitais no sentido de terem responsabilidade de produzir conteúdo sem reforçar violação de Direitos Humanos de Grupos Vulneráveis?

Resp.As opiniões emitidas pelos influenciadores digitais são, em maior ou menor grau, amplificadas por meio da internet que influencia e passa também a fazer parte, quase indissociavelmente, dos processos de comunicação e, nesse sentido, acaba por influenciar também na construção das identidades.

Não é possível esquecer, no entanto, que os processos comunicativos realizados por influenciadores digitais que fazem disso sua profissão, são atividades monetizadas, ou seja, estão associadas a divulgação de produtos, idéias ou serviços em troca de pagamentos, seja através de propaganda ou parcerias. Sua credibilidade é utilizada no sentido de buscar influenciar, de forma rápida, através de sua proximidade com o público, o consumo de determinados produtos.

O influenciador utiliza sua credibilidade junto a audiência para promover sua reputação diante de um nicho específico de pessoas. A ética nesses casos deveria ser pensada com atenção ao se tentar passar credibilidade para tal produto, a fala é do sujeito ou do marketing? Pode haver uma confusão no que diz respeito a produção de sentidos e efeito de verdade daquilo que é transmitido.

Se for uma narrativa construída publicitariamente, como no caso de personalidades que afirmam que determinado produto serve para emagrecer, não fica claro para os seguidores que outros procedimentos estéticos possam ter sido aliados ao citado emagrecimento. A naturalização de padrões estéticos tidos como ideais a serem atingidos, sejam eles corporais ou de comportamento, induz a tentativa de adaptação ou mesmo marginalização de pessoas que não estejam dentro desse perfil.

 Um influenciador também pode ter como habilidade influenciar debates e inserir pautas de discussão com efeitos de verdade, sem que seja percebido que se tratam de fato de um recorte da realidade e não da tradução literal da mesma. São narrativas por vezes assumidas como verdade absoluta. Nesse sentido, alguns padrões de comportamento homogeneizante podem ser disseminados e, especialmente no atual momento social de polarizações em que estamos vivendo, ser revestidos de intolerância as diferenças.

 Além disso, a possibilidade de acesso a publicação de opiniões por todos faz com que até mesmo falas repletas de ódio e intolerância encontrem repercussões e propagadores e, nesses casos, o direito a liberdade de expressão não pode ser confundido com a disseminação de discurso de ódio.

Qual o papel da Educação Formal para dialogar e refletir sobre os impactos de Influenciadores Digitais e da cultura das redes sociais?

Resp. O ambiente online, inclusive quando utilizado como ferramenta pedagógica e que visa a construção de conhecimento, pelo menos a principio, proporciona igualdade de acesso a informações. Nesse sentido é possível produção de conteúdo por todos, e o acesso a circulação de narrativas subjetivas com perspectivas diversas, até mesmo pela parte da população considerada minoria e historicamente negligenciada em seu acesso a direitos. 

 Apesar disso, mostra-se também um ambiente ambíguo uma vez que, paralelamente ao fornecimento de vias para amplificação do discurso pela busca de direitos, conforme já mencionado, também vem nos últimos tempos também sendo cada vez mais espaço para disseminação do ódio e intolerância ao diferente.

Não se pode minimizar, no entanto, a importância desse recurso como ferramenta com potencial para aprendizagem e partilha de conteúdos que, se bem direcionados, podem servir como meio de acesso a direitos. Esse acesso indiscriminado parece precisar passar por direcionamento que pode, claro, ser construído também como habilidade através da educação formal no trabalho para adicionar senso crítico e valores humanitários aos novos modelos de comunicação que se apresentam.

A convivência com a diversidade, possível nesse ambiente, traz oportunidade para o desenvolvimento de uma noção de alteridade e multiplicidade de diálogos, bem como construção coletiva de identidades através do reconhecimento, aceitação e convivência de diferentes formas de existir e se portar no mundo.