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A “Grande demissão” alcança universidades

A pandemia de COVID19 deixou um estrago razoável nos postos de trabalho do mundo inteiro. O que foi chamado pela mídia de “a grande demissão” provocada pela crise relacionada a pandemia que tirou o emprego de 47 milhões de trabalhadores nos EUA e de 2 milhões no Reino Unido parece ter chegado ao meio acadêmico e, muito provavelmente, por uma avalanche de outros motivos que não apenas os relacionados à pandemia.

A revista Nature publicou o texto intitulado Has the “great resignation” hit Academia? (A “grande demissão” atingiu o meio acadêmico? Em tradução livre) no qual conta a história de alguns pesquisadores que abandonaram os postos de trabalho em meio a uma crise com vários indicadores como: desânimo, falta de condições de trabalho, falta de financiamento da pesquisa, baixos salários, cortes nas aposentadorias, relações tóxicas, casos de sexismo, de racismo e outras variáveis. Se quiser ver o artigo clique aqui.

O fenômeno afeta mais fortemente os pesquisadores em meio de carreira. De acordo com pesquisa realizada pela própria Nature, 37% dos pesquisadores em meio de carreira desistiram ou pensaram em desistir dos seus postos de trabalho, ou simplesmente se declararam infelizes com a carreira que levam. Um percentual significativamente maior do que os pesquisadores em início ou no final de carreira.

Alguns destes pesquisadores estão encontrando abrigo em consultorias especializadas ou mesmo mudando radicalmente de profissão, por se sentirem infelizes e sem perspectiva com o que vinham fazendo. Este fenômeno vem sendo verificado em países como EUA, Reino Unido e Australia. Na Austrália, a pandemia alterou o fluxo de estudantes oriundos de outros países, reduzindo o orçamento das instituições e obrigando a uma demissão que alcançou 20%.

A situação no Brasil e no Piauí

No Brasil a situação não é diferente e, na minha visão pessoal, está pior. Para começar a queda no financiamento da pesquisa alcançou, nos últimos 10 anos, a cifra de 84%. Isso mesmo: em valores atualizados, o governo brasileiro investe somente 1,8 bilhões de reais anuais em pesquisa, cerca de um terço do valor que será gasto para financiar a campanha política deste ano. Estes cortes atingem em cheio o financiamento, especialmente no item de formação de novos pesquisadores. Há mais de 10 anos as bolsas para formação de mestres e doutores estão estagnadas. O que já representou um valor considerável de quase 10 salários-mínimos,a bolsa de Doutorado hoje representa 2.200 reais, pouco mais de um salário-mínimo vigente (R$ 1.212). É importante ressaltar que esta queda se agravou agora, no período da pandemia, obrigando as instituições a cortarem gastos importantes, como no caso da UFPI que anunciou um racionamento de energia elétrica motivado pelos cortes orçamentários. Do mesmo modo o IFPI anuncia um corte de 5 milhões do seu orçamento, comprometendo os serviços de manutenção, pagamento de despesas básicas como água e energia, dentre outros.

O marasmo relatado na Nature está relacionado com o trato administrativo também. O pesquisador Caspar Addyman da Goldsmith University de Londres admitiu que a incompetência na gestão foi um fator preponderante para que ele abandonasse sua pesquisa e sua colocação na Universidade. Este desânimo também afeta professores das universidades locais, como a Universidade Estadual do Piauí. Na UESPI, o plano de carreira já está estagnado para alguns profissionais que não tem mais como melhorar sua situação financeira. Até hoje a gestão nunca cuidou em regulamentar o acesso ao cargo de Professor Titular presente desde que o Plano de Cargos, Carreiras e Salários foi aprovado e implementado, em 2009, pela falta de autonomia, falta de diálogo com o Governo Estadual e a falta de boa vontade também. A gestão da UESPI comemora quando consegue abrir um edital de transferência externa com quase 4 mil vagas, esquecendo que, se existem 4 mil vagas é porque antes existiram 4 mil desistentes. Não se tem notícia de qualquer iniciativa da universidade em tentar deter a evasão gigantesca presente em todos os cursos, tanto no interior quanto na Capital.

As carreiras acadêmicas, sonho de muitos profissionais, passam pelo seu pior momento. As carreiras precisam se reinventar em instituições que precisam ser melhoradas. Universidades, mesmo públicas e gratuitas, como no caso do Brasil, já não atraem como faziam em épocas pretéritas. É preciso e necessário que as IES sejam mais bem pensadas e planejadas. A pesquisa e a extensão, pilares importantes do tripé universitário, precisam ser estimuladas para que a população conheça o valor que estas instituições têm. Publicar nas redes sociais e na mídia que vai tudo lindo e maravilhoso é tentar se proteger do sol com uma placa de vidro.

Uma ótima semana para todos (as).