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Corta a Ciência! Corta soberania!

Na semana que passou o país inteiro sofreu com uma greve de caminhoneiros. Até quem nunca pensou que seria afetado pagou o pato (sem nenhum tipo de correlação com um pato famoso que tem por aí!). Desabastecimento de tudo, inclusive de combustível. Prejuízo imenso para as cadeias produtivas do país porque faltou ração para alimentar os animais. Leite derramado no esgoto, porque não tinha como escoar a produção das bacias leiteiras.

Esta dependência perigosa de um único modal de transporte é fruto de um abandono lá atrás, no passado, onde uma malha ferroviária inteira parou de crescer e passou a encolher. Modais mais baratos ainda, abortados nos primeiros momentos de sua evolução, como o transporte fluvial. Investimentos em ferrovias: zero! Investimentos em proteção da navegabilidade dos rios: zero! Investimento na malha rodoviária: o máximo possível! Afinal a indústria automobilística crescendo, os insumos para produção de veículos crescendo, a oferta de combustíveis fósseis em alta. E viva o fim da crise do petróleo!!! Abu Dhabi que o diga...

Agora, na esteira da política de preços flutuantes do mercado internacional, aumento dia sim e outro também nos derivados do petróleo. E também nos não derivados. Etanol subindo de preço também.

Solução pós-greve: baixar o preço do Diesel, congelando por dois meses, cortar impostos e taxações sobre este combustível etc. Quem pagará a conta? Nem precisa ser expert em economia para saber.

Uma pergunta: mas o blog não é de Ciência? Pode estar se questionando o incauto leitor... Mas a ciência brasileira também foi para lona por causa do mau gerenciamento dos preços e lucros da nossa estatal de petróleo.

Dia 04 de junho várias entidades que se ocupam de trabalhar com Ciência no Brasil assinaram um manifesto pedindo aos legisladores do Brasil que revisem os termos dos cortes orçamentários propostos na Medida Provisória nº 839/2018. Ela afeta oito segmentos relacionados à ciência e a educação brasileira. Transcrevo abaixo os segmentos e onde vai apertar o calo, com os cortes de verbas:

1. CNPq – prejudicando a formação de recursos humanos;

2. Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) – afetando o fomento à pesquisa e à inovação tecnológica, em empresas inovadoras e instituições de ciência e tecnologia;

3. MEC – prejudicando a concessão de bolsas para estudantes de Instituições de Ensino Superior;

4. Ministério da Saúde – atingindo importantes programas da Fiocruz e prejudicando o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS);

5. Programas de Educação do Campo (INCRA) e Educação e Formação em Saúde (Fiocruz, Funasa e Fundo Nacional de Saúde);

6. Fundo de Universalização das Telecomunicações (FUST) – afetando serviços que visam atender a população excluída do mercado, primordialmente nas áreas de educação, de saúde, de segurança e as bibliotecas em regiões remotas e de fronteira;

7. EMBRAPA – prejudicando pesquisas que agregam valor à produção agrícola e beneficiam a segurança alimentar e a pauta de exportações do país;

8. INMETRO – atingindo programa de fiscalização em metrologia e qualidade.

Ao todo 46 entidades assinaram o manifesto, dentre elas a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) da qual me orgulho em fazer parte como membro, dois Fóruns permanentes, uma federação, três conselhos de gestores nas áreas de Ciência e Tecnologia e Amparo à Pesquisa, oito associações e 32 sociedades científicas diversas. O que se pede é a análise mais cuidadosa destes cortes.

Para que a Ciência, Tecnologia e Inovação no nosso país possa se desenvolver é necessária a aplicação de recursos, indubitavelmente. No Brasil, mais da metade dos recursos aplicados são de natureza pública, que muitas vezes puxam as aplicações advindas do segmento privado.

Sem a aplicação de recursos fica muito difícil fazer pesquisa. Sem a pesquisa não há geração de conhecimento. Sem geração do conhecimento não há domínio sobre o que é possível virar bem de produção e consumo. O resultado disso é que tudo o que consumimos precisa vir de nações que investem em pesquisa. Já é assim praticamente.

Se verificarmos a balança comercial brasileira vamos ver que dos dez produtos mais exportados pelo Brasil em 2017, oito são matéria-prima (soja, café, açúcar, óleo bruto para refino, minério etc.). Os dois restantes são carros montados aqui e aviões. Se formos filtrar e considerarmos que os carros são apenas montados aqui (não são resultado de desenvolvimento tecnológico local), a única coisa que o Brasil consegue exportar, fruto de desenvolvimento tecnológico são os aviões. Não é à toa que EMBRAER é a terceira maior fabricante de aviões do mundo.

Exportar muita matéria-prima é sinal de que somos uma colônia. Não conseguimos agregar valor a estes produtos. Por que? A causa básica é a falta de desenvolvimento da pesquisa aplicada, principalmente. A pesquisa aplicada só se desenvolve bem se a pesquisa básica estiver conseguindo avançar. Um exemplo: desenvolvimento de uma droga extraída de uma planta para combater determinada doença (pesquisa aplicada), conhecer esta planta, o ambiente onde ela vive e como ela se relaciona com outros organismos (pesquisa básica). Não tem dinheiro nem para a básica e nem para aplicada.

Precisamos fazer alguma coisa contra esta situação caótica. A principal arma é saber escolher nossos representantes.

Até o próximo post...