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COVID19: o que diz o estudo com a Hidroxicloroquina?

A crise provocada pela COVID19 fez piorar um clima de disputa eleitoral ideológica que contamina o Brasil desde 2018, onde direitistas e esquerdistas se digladiam por motivos inimagináveis e, agora, por métodos para evitar que haja a proliferação de uma gripe que pode evoluir para um quadro agudo de pneumonia.

À parte a disputa irracional por espaços em um campo dominado por memes e alimentado pela democracia das redes sociais, onde imperam o facebook, whatsapp e outros meios, a disputa agora é saber se “é melhor morrer pelo vírus ou morrer de fome”, como disse um amigo, num tom inquisitório. Fui atrás para saber o que há de concreto quanto ao uso de Cloroquina e o correspondente Hidroxicloroquina, como alternativa de tratamento, ante a este isolamento horizontal sem data para acabar e que está mexendo com a saúde mental de todo mundo.

A corrente que defende a quarentena baseia-se em modelos matemáticos que explicam os efeitos devastadores provocados pela falta de isolamento social, já comprovado com um experimento real que ceifou milhares de vidas como na Itália e na Espanha, que demoraram a adotar alternativas capazes de impedir o avanço da contaminação. Este experimento está se repetindo nos EUA que em poucos dias ultrapassou o somatório do número de infectados na China, Itália e Espanha. Em países que enfrentaram crises parecidas como no caso da Coreia do Sul, e estabeleceram regras rígidas, a doença não avançou na mesma intensidade. Assim, o estabelecimento do isolamento social e com o consequente achatamento da curva de infecção (nós já falamos disso aqui) é uma estratégia que funciona.

Do outro lado há uma corrente que defende cegamente o uso maciço da droga cloroquina ou hidroxicloroquina. Esta droga é usada há décadas para combater a malária e para ajudar no tratamento a doenças autoimunes como o lúpus. Mas o que há de concreto em relação a COVID19?

Aproveitei a quarentena e fui buscar estudos e outras evidências científicas sobre o uso da cloroquina para o tratamento da COVID19. Num primeiro momento fiquei assustado e até animado com a quantidade de estudos e ensaios que já estão publicados de março para cá, tratando da COVID19 e suas consequências. Encontrei o estudo-chave que algumas pessoas estão usando como referência, com o título “Hidroxicloroquina e azitromicina como tratamento de COVID19, resultados de um ensaio clínico não randomizado de rótulo aberto” (tradução livre) publicado na Revista Antimicrobial Agents por 18 autores, a maioria de nacionalidade francesa, tendo como primeiro autor Philippe Gautret, em março de 2020.

Este estudo seguiu o método científico para ensaios clínicos e usou 36 pacientes: seis pacientes assintomáticos, 22 pacientes com infecção no trato respiratório superior e oito pacientes com infecção no trato respiratório inferior. Os pacientes foram divididos em dois blocos. O grupo controle formado por 16 pacientes com idade média de 37,3 anos, que não recebeu o medicamento. E o grupo experimental formado por 20 pacientes que receberam 600 mg de hidroxicloroquina por dia, durante 10 dias. Em alguns casos, os pacientes receberam também o antibiótico Azitromicina. Este grupo tinha uma média de idade superior, com 51,2 anos e o ensaio durou 14 dias no total.

Os resultados foram bastante animadores. Os pacientes eram avaliados diariamente e frequentemente submetidos ao teste de verificação da presença do vírus. Na maioria dos tratados com os medicamentos no sexto dia de tratamento já não apresentavam sinais da presença do vírus nas amostras para os exames nasofaríngeos.

Todos os pacientes que foram tratados com a combinação Hidroxicloroquina + Azitromicina testaram negativo para presença do vírus no sexto dia. O grupo que recebeu apenas Hidroxicloroquina, 57,1% dos pacientes testaram negativo para presença do vírus. Já os pacientes que não receberam os medicamentos (o grupo controle), apenas 12,5% dos pacientes testaram negativo para presença do vírus no sexto dia. Estatisticamente, o experimento demonstrou eficiência das drogas, combinadas ou não, na redução da carga viral nos pacientes, com significância nos resultados. Todavia é importante que fique bem claro que o ensaio foi feito apenas com 36 pacientes, uma amostra realmente muito pequena. O próprio artigo revela que avaliações estatísticas demonstraram que um incremento do número de pacientes, ainda que pequeno, de 36 para 48, sendo 24 pacientes em cada grupo (controle e experimental) forneceria um resultado mais seguro. Mas e agora?

A Hidroxicloroquina é um medicamento que não pode ser tomado sem critérios e sem orientação médica. O próprio artigo dos pesquisadores franceses já aponta contraindicação para o uso da droga em casos de retinopatia (doença na retina, podendo levar pacientes a cegueira), deficiência em G6PD (uma enzima que atua no metabolismo celular) e prolongamento do intervalo QT (intervalo medido através de Eletrocardiograma, o que indica que a droga provoca arritmias cardíacas). O uso indiscriminado é altamente temeroso, inclusive porque não há evidências que a droga previna o paciente de ter contato com a doença. O simples boato de que a droga poderia ter alguma eficácia levou a uma corrida até as farmácias aqui no Brasil, provocando baixas no estoque do medicamento e trazendo dificuldades para os usuários da droga de forma contínua e com indicação médica no caso de portadores de artrite e de doenças autoimunes como o lúpus.

O que me deixou mais animado quando estava lendo para produzir este post é que já existem grupos do mundo inteiro pesquisando saídas para o tratamento da COVID19. Na minha opinião a solução é igual nossa paciência frente a esta quarentena: uma questão de tempo!

Se você quiser ler mais sobre o coronavírus que já publicamos clique aqui, aqui, aqui ou aqui.

Se você não quiser ler mais nada sobre a coronavírus, publiquei textos durante a quarentena que passam longe desse assunto. Clique aqui, aqui, aqui ou aqui.

Boa semana para todos (as).